A engrenagem invisível: como o mercado de exames virou o motor oculto da saúde brasileira

Entre bilhões de procedimentos, máquinas de ressonância que custam o preço de uma casa e uma nova geração de plataformas digitais, a medicina diagnóstica se transformou em um dos setores mais estratégicos — e mais opacos — do sistema de saúde do país

Saúde Concierge

8/23/202631 min read

pessoa realizando ressonancia magnética nuclear panorama do mercado de exames e diagnósticos Brasil
pessoa realizando ressonancia magnética nuclear panorama do mercado de exames e diagnósticos Brasil

Um paciente sai do consultório com um pedido médico na mão. Antes de chegar a qualquer tratamento, ele precisa atravessar uma etapa que raramente aparece nas discussões públicas sobre saúde no Brasil: encontrar onde fazer o exame, descobrir quanto vai custar, esperar por uma vaga e, só então, voltar ao médico com uma resposta. Esse intervalo — entre o pedido e o resultado — parece burocrático. Na prática, é uma das maiores engrenagens econômicas da saúde brasileira, e também uma das menos visíveis.

Por trás de cada tubo de sangue coletado, de cada tomografia agendada, de cada ressonância magnética realizada às seis da manhã em uma clínica de bairro, existe uma cadeia industrial complexa: laboratórios, clínicas de imagem, hospitais, fabricantes de equipamentos importados, operadoras de saúde, o Sistema Único de Saúde (SUS), radiologistas, biomédicos e, mais recentemente, uma geração de empresas de tecnologia que tenta reorganizar digitalmente essa jornada. Em 2024, esse conjunto de atividades foi responsável por mais de 1 bilhão de exames no Brasil, segundo a Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed) — um crescimento de 15,7% em relação a 2023. Já a 7ª edição do relatório setorial da própria entidade, o Painel Abramed – O DNA do Diagnóstico, divulgado em agosto de 2025, contabilizou isoladamente mais de 2,53 bilhões de exames laboratoriais realizados no mesmo ano, uma alta de 10% sobre 2023, somando SUS (1,342 bilhão) e saúde suplementar (1,192 bilhão). A diferença entre os dois números — divulgados pela mesma entidade, com poucos meses de intervalo — já é reveladora: não existe, hoje, uma métrica única e consolidada para medir o tamanho do mercado brasileiro de diagnósticos. O que existe são recortes, metodologias e fontes que se sobrepõem parcialmente, e é dentro dessa imprecisão que a indústria opera.

Esta reportagem tentou mapear essa engrenagem: seu tamanho, sua economia, suas desigualdades regionais e o movimento mais recente — a chegada de plataformas digitais e marketplaces que prometem reorganizar, para o paciente, o caminho entre o pedido médico e o diagnóstico.

A indústria que ninguém vê

A medicina moderna depende, de forma crescente, de informação produzida fora do consultório. Um cardiologista não decide sozinho se um paciente terá alta ou ficará internado: ele depende do resultado de um ecocardiograma. Um oncologista não define o protocolo de tratamento sem uma tomografia ou uma biópsia processada em um laboratório de anatomia patológica. Um ortopedista não indica cirurgia sem uma ressonância que mostre o estado exato de um ligamento. Da endocrinologia à saúde da mulher, da medicina esportiva às emergências, praticamente toda especialidade médica hoje é, em algum grau, refém da capacidade do sistema de produzir diagnósticos rápidos e confiáveis.

Essa dependência criou, ao longo de décadas, uma indústria paralela à prática clínica tradicional. Segundo o Painel Abramed, o Brasil tinha, na virada de 2024 para 2025, 78.803 estabelecimentos oferecendo algum tipo de serviço de medicina diagnóstica — de pequenos laboratórios de bairro a centros de imagem de alta complexidade dentro de hospitais terciários. A região Sudeste concentra 43,5% desse total, evidenciando desde já uma assimetria geográfica que atravessa toda a cadeia. Ainda de acordo com dados do DataSUS citados pelo relatório, existem quase 300 mil equipamentos de diagnóstico em operação no país, dos quais 94,3% estão efetivamente em uso — um indicador de que a capacidade instalada, quando existe, tende a ser bem aproveitada, o que por si só sugere que o gargalo do sistema não é ocioso, mas mal distribuído.

O paciente comum enxerga apenas a ponta desse processo: a recepção da clínica, a maca do exame, o aplicativo que avisa que o laudo ficou pronto. Atrás disso está uma cadeia de fornecedores de equipamentos importados (a maioria dos tomógrafos e ressonâncias magnéticas instalados no Brasil vem de fabricantes como GE HealthCare, Siemens Healthineers, Philips e Fujifilm), de sistemas de gestão hospitalar em nuvem, de operadoras de planos de saúde que reembolsam ou credenciam prestadores, e de um mercado de trabalho que já emprega mais de 307 mil pessoas diretamente em medicina diagnóstica — 11,1% de todas as vagas abertas na área da saúde no país em 2024, segundo a Abramed. Só os laboratórios clínicos respondem por 144,7 mil desses postos. Em um único ano, o setor abriu um saldo líquido de 9,1 mil novas vagas, quatro vezes mais do que em 2023 — um crescimento de emprego puxado, em grande parte, pelo mesmo fator que explica praticamente todas as tendências desta reportagem: o envelhecimento da população brasileira.

Quanto vale, de fato, o mercado de exames no Brasil

Não existe, como já mencionado, um número único capaz de resumir o tamanho do mercado brasileiro de diagnósticos — e qualquer reportagem que afirme o contrário estaria simplificando demais um setor genuinamente fragmentado em suas fontes de dados. O que existe são pedaços que, somados, dão uma ideia da escala.

Pelo lado dos volumes, os números mais recentes e mais citados no setor vêm do Painel Abramed. Em 2024, o Brasil realizou mais de 2,53 bilhões de exames laboratoriais — um crescimento de 10% sobre 2023 —, divididos quase meio a meio entre o SUS (1,342 bilhão) e a saúde suplementar (1,192 bilhão). Já o diagnóstico por imagem, a segunda maior categoria em volume do setor, somou 24,4 milhões de exames em 2024, um salto de 43,4% em relação aos 17 milhões do ano anterior — um dos crescimentos mais expressivos já registrados pela série histórica da entidade. Dentro do SUS especificamente, o Boletim Econômico da Associação Brasileira da Indústria de Alta Tecnologia de Produtos para Saúde (ABIIS) mostrou que, em 2024, o número de tomografias cresceu 16,4% e o de ressonâncias magnéticas, 12,4% — enquanto o total de exames na rede pública avançou 6%, chegando a 1,3 bilhão.

Pelo lado da saúde suplementar, o retrato mais atualizado é o Mapa Assistencial 2025 da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), divulgado em julho de 2026: pela primeira vez, o setor privado ultrapassou a marca de 2 bilhões de procedimentos assistenciais em um único ano — consultas, exames, terapias, internações e procedimentos odontológicos somados —, um crescimento de 3,7% sobre 2024. Os exames, isoladamente, foram 1,23 bilhão, alta de 3,9%, respondendo por mais de 60% de todos os eventos assistenciais registrados pelos cerca de 53 milhões de beneficiários de planos de saúde do país. Em termos práticos, isso equivale a quase 5,5 milhões de procedimentos por dia, ou aproximadamente 230 mil atendimentos por hora, todos os dias do ano. Para efeito de comparação histórica, em 2022 a ANS registrava pouco menos de 1,1 bilhão de exames entre beneficiários, com uma média de 22,2 exames por pessoa ao ano — número que já vinha subindo continuamente desde 2020 (16,5), passando por 2021 (20,6) e 2019 (19,8).

Pelo lado da indústria de equipamentos, o cenário é igualmente fragmentado entre estimativas. Segundo dados consolidados por entidades como a ABIMO, a ABIMED e a própria ABIIS, o mercado brasileiro de dispositivos médicos atingiu R$ 26,1 bilhões em produção industrial em 2024 — o terceiro ano seguido de crescimento —, empregando mais de 85 mil pessoas diretamente na indústria. Já uma estimativa específica para o segmento de equipamentos de diagnóstico por imagem, feita pela consultoria internacional IMARC Group, aponta um mercado de cerca de R$ 3,1 bilhões em 2025 — um recorte mais estreito, que não deve ser confundido com o valor total movimentado pelos serviços de diagnóstico, mas apenas pela venda de máquinas. Em outra direção, um estudo da consultoria de dados em saúde LifesHub, divulgado pela Exame em abril de 2026, calculou que o Brasil tem 11.062 equipamentos de imagem instalados, dos quais 4.684 — quase 42% do parque nacional — já estão próximos do fim da vida útil técnica, projetando um ciclo de substituição de mais de R$ 23 bilhões nos próximos anos, considerando um custo médio acima de R$ 5 milhões por equipamento.

Nenhum desses números, isoladamente, descreve "o mercado brasileiro de diagnósticos". Juntos, eles descrevem algo mais interessante: um setor gigantesco em volume, relevante em emprego, crescente em complexidade tecnológica, mas ainda sem um sistema único de contabilidade que permita compará-lo, por exemplo, ao mercado de varejo ou ao setor bancário. Essa opacidade estatística é, como se verá adiante, parte da mesma opacidade que afeta o próprio paciente na hora de descobrir quanto vai pagar por um exame.

Ressonância magnética: o símbolo caro da sofisticação diagnóstica

Se um único equipamento resume a sofisticação — e as contradições — da medicina diagnóstica brasileira, é a ressonância magnética. Ela usa campos magnéticos potentes e ondas de rádio para alinhar as partículas de hidrogênio do corpo humano e, a partir dos sinais emitidos por essas partículas, construir imagens detalhadas de tecidos moles: cérebro, medula, músculos, articulações, mama, próstata, coração. Ao contrário da tomografia computadorizada, que utiliza radiação ionizante (raios X), a ressonância não expõe o paciente a radiação — o que a torna especialmente valiosa em exames repetidos ao longo de um tratamento, como no acompanhamento oncológico ou em doenças neurológicas crônicas.

A complexidade técnica do equipamento explica seu custo. Um aparelho de ressonância magnética moderno custa, em média, mais de R$ 5 milhões, segundo a estimativa da LifesHub citada anteriormente — e esse valor não inclui obra civil especializada (as salas precisam de blindagem eletromagnética), manutenção contínua, contratos de serviço com o fabricante e, historicamente, o custo do hélio líquido usado para resfriar o ímã supercondutor, cerca de 2 mil litros por aparelho convencional. Segundo um relatório da consultoria Mordor Intelligence sobre o mercado brasileiro de ressonância magnética, o preço global do hélio chegou a dobrar entre 2022 e 2024, pressionando o custo operacional das clínicas — um dos motivos pelos quais fabricantes como Philips (com a tecnologia BlueSeal) e Fujifilm (ECHELON Smart) vêm lançando ímãs "selados", que eliminam praticamente a necessidade de reabastecimento de hélio.

O mesmo relatório da Mordor Intelligence estima que o mercado brasileiro de ressonância magnética valia US$ 340,31 milhões em 2025, com projeção de chegar a US$ 357,5 milhões em 2026 e US$ 457,35 milhões até 2031 — um crescimento anual composto estimado em 5,05%. São números privados, de uma consultoria internacional, e devem ser lidos como estimativa de mercado, não como dado oficial. Ainda assim, eles ajudam a situar a ressonância dentro de um movimento mais amplo: o mercado global de imagens médicas (hardware, software e serviços combinados) deve chegar a US$ 47,4 bilhões até 2030, segundo a consultoria Grand View Research, citada pelo portal especializado Saúde Business — e o Brasil é apontado, nesse levantamento, como o mercado de maior crescimento em diagnóstico por imagem da América Latina.

A inteligência artificial já começa a mudar a equação econômica do exame. Segundo o mesmo relatório da Mordor Intelligence, sistemas de reconstrução de imagem por IA, como o GE AIR Recon DL, têm reduzido em cerca de 36% o tempo de exame em unidades da rede Rede D'Or — o que aumenta o número de pacientes atendidos por dia em cada máquina e reduz o custo por exame, ainda que a máquina em si continue sendo um ativo de altíssimo valor. Em novembro de 2025, um decreto do governo federal destinou R$ 1,7 bilhão para modernização de hospitais públicos a partir de 2026, incluindo inteligência artificial, conectividade 5G e capacidade de cirurgia robótica — um sinal de que o investimento público também começa a mirar, ainda que modestamente frente ao tamanho do desafio, a renovação tecnológica do parque de imagem do SUS.

Mas talvez o dado mais contundente sobre a ressonância magnética no Brasil não venha do mercado, e sim do acesso. Um levantamento feito a partir de dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), publicado pela Sociedade Brasileira de Medicina Diagnóstica por Imagem e Neurorradiologia (SBMDN) com base em reportagem da Folha de S.Paulo, mostrou que as maiores taxas de equipamentos por milhão de habitantes estão concentradas nas regiões Centro-Oeste (23,26 máquinas por milhão), Sul (20,17) e Sudeste (19,44) — juntas, essas três regiões somam 2.632 aparelhos em uso, dos quais pelo menos 1.467 pertencem à rede privada. Como apenas cerca de 51 milhões de brasileiros, ou 25% da população, tinham acesso a planos de saúde privados em 2023 (dado da própria ANS), a conclusão é direta: metade do parque nacional de ressonância magnética está concentrada em uma rede que atende a um quarto da população do país. Segundo o presidente do conselho da Abramed, César Nomura, citado na mesma reportagem, a menor presença de equipamentos de ressonância nas regiões Norte e Nordeste está ligada à necessidade de infraestrutura consolidada — energia estável, conectividade, radiologistas — para viabilizar a instalação de um equipamento desse porte, o que cria um ciclo difícil de romper apenas com investimento pontual.

O preço de um exame: por que ninguém sabe quanto vai pagar

Peça a três pessoas diferentes o preço de uma ressonância magnética de crânio particular em São Paulo e é provável que você receba três respostas muito diferentes. Levantamentos editoriais publicados por clínicas, blogs de saúde e comparadores de preço — todos eles estimativas privadas, não dados oficiais — mostram uma dispersão de valores que impressiona: exames simples, sem contraste, em clínicas de médio porte, costumam ficar entre R$ 900 e R$ 1.500; em instituições de alto padrão, o mesmo exame pode ultrapassar R$ 2.500. Com contraste, o acréscimo costuma girar em torno de 30%. Uma ressonância de corpo inteiro pode variar de R$ 1.500 a R$ 4.000, dependendo da clínica e da região do país. Um levantamento editorial de janeiro de 2026 apontou faixa típica entre R$ 500 e R$ 1.200 sem contraste e R$ 800 e R$ 2.500 com contraste no mercado particular — enquanto, na mesma reportagem, a coparticipação fixa cobrada por uma operadora de saúde verticalizada para o mesmo exame variava entre R$ 114,48 (em capitais como Fortaleza, Recife, Salvador e Manaus) e R$ 125,93 (em São Paulo e Belo Horizonte) — uma fração pequena e previsível do valor de mercado, mas que só se aplica a quem já é beneficiário daquele plano específico.

Essa variação não é acidental nem, necessariamente, abusiva: ela reflete uma combinação real de fatores — a região do corpo examinada, o uso ou não de contraste, a intensidade de campo do aparelho (1,5 Tesla ou 3 Tesla, por exemplo), a estrutura da clínica, os custos operacionais locais, a concorrência na região e a escala de atendimento de cada rede. O problema é outro: para o paciente particular, sem cobertura de plano, descobrir essas informações continua sendo um exercício manual e ineficiente — ligar para várias clínicas, perguntar valores, comparar prazos, entender o preparo necessário. Essa fricção, historicamente, foi absorvida pelo próprio paciente. É justamente nesse espaço — entre o pedido médico e a decisão de onde realizá-lo — que uma nova geração de empresas digitais enxerga oportunidade, como será detalhado nas próximas seções.

Grandes redes, mercado fragmentado: a corrida pela consolidação

O mercado brasileiro de medicina diagnóstica vive, ao mesmo tempo, dois movimentos aparentemente opostos: uma consolidação acelerada no topo da pirâmide e uma pulverização persistente na base. Os 78.803 estabelecimentos de diagnóstico espalhados pelo país, mencionados anteriormente, convivem com poucos grupos de capital aberto que concentram parcela relevante da receita e da capacidade de investimento do setor.

O caso mais emblemático dos últimos anos é a fusão entre o Grupo Fleury e o Hermes Pardini, concluída em maio de 2023. A combinação de negócios uniu duas das marcas mais tradicionais da medicina diagnóstica brasileira — o Fleury, fundado em 1926 e historicamente associado ao segmento premium paulista, e o Hermes Pardini, mineiro, fundado em 1959 e conhecido pela robusta operação de "lab-to-lab" (prestação de serviços de processamento para laboratórios menores). O resultado, segundo o relatório da administração do grupo, foi um salto na receita bruta contábil de 19,5% em 2024, para R$ 8,3 bilhões, com presença em 14 estados. Em 2025, a receita se manteve em R$ 8,3 bilhões (alta de 7,9%), com lucro líquido de R$ 0,60 bilhão, margem Ebitda de cerca de 26% e retorno sobre patrimônio (ROE) de aproximadamente 12%. A companhia não tem acionista controlador — os acionistas de referência, o grupo Bradesco de Seguros e a associação de Médicos Associados, somam pouco mais de 20% do capital, com free float de cerca de 56%. Em 2025, mesmo já consolidado, o grupo seguiu comprando: adquiriu a Hemolab, em Minas Gerais, o laboratório LSL, em São Paulo, e a GIP Medicina Diagnóstica — dona da marca Femme, voltada à saúde da mulher —, por R$ 207,5 milhões, segundo levantamento da consultoria J2L Partners especializada no setor. "O mercado de medicina diagnóstica é muito fragmentado no Brasil. Há muitos laboratórios pequenos que podem ser vendidos", resumiu o diretor financeiro do grupo, José Antonio Filippo, em entrevista ao jornal O Tempo, ao justificar a estratégia contínua de aquisições regionais.

O outro grande grupo do setor, a Dasa, viveu uma trajetória bem mais acidentada. Depois de anos de diversificação — incluindo uma fusão com a rede hospitalar Ímpar, em 2019, que ampliou fortemente seu porte, mas também sua dívida —, a companhia chegou a acumular R$ 9 bilhões em dívida líquida em 2024, com alavancagem financeira próxima do limite de covenants de 4 vezes o Ebitda. A resposta, sob a liderança do novo CEO Rafael Lucchesi, foi um movimento de retração estratégica: em 2024, a Dasa transferiu parte de sua operação hospitalar para uma joint venture com a operadora Amil, batizada Rede Américas — com 50% de participação para cada sócio, reunindo 25 hospitais e 4,3 mil leitos —, e vendeu operações na Argentina e na área de medicina ocupacional por R$ 705 milhões, usados para reduzir dívida. Em 2025, a receita bruta consolidada da Dasa caiu 37% justamente por causa da saída dos hospitais do balanço — mas o segmento de diagnósticos, isoladamente, cresceu 6%. No segundo trimestre de 2026, já refletindo a nova estrutura, a receita bruta do grupo cresceu 8%, para R$ 2,4 bilhões, dos quais R$ 2,2 bilhões (alta de 9%) vieram da medicina diagnóstica, distribuída por 833 unidades. A alavancagem, que era de 4,08 vezes o Ebitda em 2024, recuou para 2,67 vezes em 2025 e para 3,5 vezes no trimestre mais recente (ou 2,91 vezes, desconsiderando o efeito pontual da venda de um hospital). "A qualidade dos ativos sempre esteve lá. O que mudou foi o nível de disciplina de gestão", resumiu Lucchesi em entrevista à Bloomberg Línea. O episódio ilustra algo relevante para entender o setor: mesmo os maiores grupos do país, com acesso a capital e escala nacional, tiveram dificuldade real em equilibrar crescimento acelerado com sustentabilidade financeira — e voltaram, em ambos os casos, a apostar no diagnóstico como núcleo estratégico do negócio, abandonando ambições mais amplas de verticalização hospitalar.

Esse movimento de fusões não é exclusivo dos dois maiores grupos. Segundo levantamento trimestral da consultoria KPMG, o setor de hospitais e laboratórios de análises clínicas registrou 22 operações de fusões e aquisições entre janeiro e setembro de 2025 — alta de 37% sobre o mesmo período de 2024, quando haviam sido 16. Das 22 operações, 15 foram domésticas (entre empresas brasileiras) e cinco envolveram fundos de private equity ou venture capital, sinal de que investidores financeiros continuam vendo valor na consolidação de um setor historicamente pulverizado. Um estudo setorial da Moody's Local, divulgado em janeiro de 2025, situa esse processo em uma linha do tempo mais longa: a onda de consolidação da saúde brasileira ganhou força a partir de 2010, impulsionada pela aprovação da Lei 13.097/2015 — que autorizou a entrada de capital estrangeiro no setor —, pela recessão econômica de 2015-2016, que empurrou hospitais e laboratórios independentes para fusões como estratégia de sobrevivência, e pela abertura de capital de diversas companhias de saúde na bolsa brasileira.

O retrato final é o de um mercado de duas velocidades: no topo, poucos grupos nacionais disputam escala, sinergia operacional e capacidade de investir em tecnologia; na base, milhares de laboratórios regionais e clínicas independentes seguem operando — muitos deles, potenciais alvos de aquisição, outros, possíveis parceiros de plataformas digitais que preferem não competir diretamente com Fleury e Dasa, mas conectar pacientes à capacidade ociosa desses pequenos players.

A digitalização (ainda incompleta) da jornada do paciente

Durante décadas, o processo de realizar um exame no Brasil seguiu um roteiro quase inalterado: o paciente recebia o pedido médico em papel, ligava (ou ia pessoalmente) a uma ou mais clínicas, perguntava preço e disponibilidade, agendava por telefone, comparecia fisicamente, aguardava o resultado impresso ou, mais recentemente, por e-mail, e retornava ao médico com o laudo em mãos. Esse modelo começou a ser corroído, de forma desigual, por diferentes camadas de digitalização.

A mais avançada delas é a telerradiologia — a capacidade de um radiologista emitir um laudo a distância, a partir de imagens armazenadas em sistemas de nuvem (PACS e RIS). Segundo reportagem da Mobilemed, empresa de tecnologia para radiologia, publicada em dezembro de 2025, essa digitalização permitiu que hospitais e clínicas em regiões remotas do país oferecessem exames de imagem com laudos elaborados por especialistas de grandes centros urbanos — uma das conquistas recentes mais citadas pelo setor em termos de equidade de acesso, ainda que limitada pela disponibilidade física do equipamento na ponta, e não apenas pela interpretação do resultado. O modelo também mudou a rotina de trabalho dos próprios radiologistas, que passaram a atuar de forma híbrida, de qualquer lugar do país.

A telemedicina, de forma mais ampla, ganhou respaldo legal permanente com a Lei 14.510/2022, sancionada em dezembro de 2022, que disciplina a prática da telessaúde em todo o território nacional e altera a Lei Orgânica da Saúde (Lei 8.080/1990) e a Lei do Ato Médico (Lei 12.842/2013). A lei consolidou, em caráter definitivo, um cenário que antes dependia de normas emergenciais aprovadas durante a pandemia de Covid-19. Ela é complementada pela Resolução CFM nº 2.314/2022, do Conselho Federal de Medicina, publicada em maio daquele ano, que exige, entre outros pontos, consentimento explícito do paciente para o atendimento a distância e assinatura digital qualificada (padrão ICP-Brasil) por parte do médico. A proteção de dados de saúde — considerados dados sensíveis pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) — é citada explicitamente como uma das bases legais que sustentam a própria resolução do CFM, o que dá uma medida do quanto a regulação de dados pessoais passou a permear até normas médicas que, à primeira vista, não tratariam do tema.

Mas a digitalização da jornada diagnóstica segue incompleta e desigual. Enquanto a interpretação de imagens já roda, em boa medida, na nuvem, o agendamento de um exame ainda depende, na maior parte dos casos, de contato humano — por telefone ou, cada vez mais, por WhatsApp. É justamente nessa lacuna entre "encontrar" e "agendar" um exame que surgiu, nos últimos anos, uma nova categoria de negócio: os marketplaces de exames.

O surgimento dos marketplaces de exames

A lógica de marketplace — uma plataforma que conecta uma demanda fragmentada (pacientes que precisam de um exame específico, em uma cidade específica) a uma oferta igualmente fragmentada (milhares de clínicas e laboratórios independentes, muitos deles operando com capacidade ociosa) — não é nova em outros setores da economia brasileira. O que é relativamente novo é sua aplicação à etapa de exames médicos, um segmento que combina alta sensibilidade regulatória, exigência de qualidade clínica e um histórico de opacidade de preços que, em tese, cria justamente o tipo de fricção que plataformas digitais costumam resolver em outros mercados.

Para o paciente, a promessa desse modelo é dupla: mais transparência (comparar preços e opções antes de decidir) e mais conveniência (encontrar rapidamente uma clínica próxima, com disponibilidade compatível com sua urgência). Para clínicas e laboratórios — sobretudo os pequenos e médios, que não têm orçamento de marketing comparável ao de Fleury ou Dasa —, a promessa é de aquisição de novos pacientes e melhor aproveitamento de horários ociosos, sem depender exclusivamente de convênios ou de indicação médica tradicional. Para o sistema de saúde como um todo, a expectativa — ainda não plenamente comprovada em escala — é de redução de fricção, ampliação da concorrência local e, potencialmente, pressão para baixo sobre preços praticados no mercado particular.

É importante notar que essa promessa carrega desafios estruturais que a diferenciam de marketplaces de produtos físicos ou de serviços mais padronizados. Padronizar informação sobre preço e disponibilidade de um exame médico exige integração operacional com sistemas de agenda de centenas de clínicas diferentes, muitas delas com processos manuais. Garantir a qualidade do prestador — evitando que o critério de escolha do paciente seja puramente o preço mais baixo — exige algum tipo de curadoria ou credenciamento. E conquistar a confiança de um paciente que está lidando com uma preocupação de saúde, muitas vezes urgente, é um desafio de natureza diferente de vender uma passagem aérea ou um par de tênis.

Um exemplo desse movimento no mercado brasileiro é a SPASS Exames, operação de agendamento de exames mantida pela SiiM Saúde Tecnologia Ltda., empresa sediada em São Paulo. A plataforma se apresenta, em seu próprio site, como "o primeiro marketplace de exames do Brasil". O que é possível verificar é a estrutura do negócio: a SPASS Exames anuncia conexão com mais de mil clínicas parceiras e mantém páginas segmentadas por cidade — em levantamento realizado para esta reportagem, o site listava operação em mais de 200 municípios espalhados por praticamente todas as regiões do país, das capitais mais populosas do Sudeste a cidades médias do interior do Pará e do Amazonas —, cobrindo exames laboratoriais e de imagem, incluindo ressonância magnética, tomografia, ultrassonografia, endoscopia e colonoscopia.

O modelo de negócio da SPASS não é o de uma operadora de saúde: a própria empresa declara, em nota de rodapé padrão em seu site, que "não é um plano de saúde, em nenhuma forma de interpretação", e que não garante nem se responsabiliza pelos serviços prestados pelos parceiros, tampouco pelo pagamento das despesas dos usuários. Trata-se, portanto, de um modelo de acesso a preços reduzidos dentro de uma rede de provedores parceiros — mais próximo do conceito de plataforma de descontos e intermediação de agendamento do que de um seguro ou convênio de saúde. O pagamento do exame é feito diretamente ao prestador do serviço, e não incluído em uma mensalidade.

Do ponto de vista da experiência do usuário, uma observação chama atenção: apesar de a página inicial da SPASS Exames anunciar a possibilidade de "comparar preços e agendar online", a jornada de conversão observada no site direciona o usuário, de fato, para um atendimento via WhatsApp — o botão principal de chamada para ação, presente em todas as páginas de cidade analisadas, abre uma conversa pré-formatada no aplicativo de mensagens, e não um checkout de agendamento totalmente automatizado. Esse detalhe é relevante para a reportagem porque ilustra, de forma concreta, um dos temas centrais desta investigação: mesmo entre empresas que se apresentam publicamente como plataformas digitais ou marketplaces, boa parte da camada final de conversão — o agendamento propriamente dito — ainda depende de atendimento humano mediado por mensagens de texto, e não de um fluxo de e-commerce plenamente automatizado, como se veria em setores mais maduros digitalmente, como o de passagens aéreas ou hospedagem.

Esse dado não invalida o modelo — pelo contrário, sugere que o WhatsApp funciona, na prática, como a camada de confiança e de resolução de exceções (checar se a clínica realmente tem horário disponível, esclarecer dúvidas sobre preparo do exame, negociar prazos) que um checkout automatizado teria dificuldade de replicar em um setor tão sensível quanto a saúde. Mas revela também os limites atuais da digitalização do setor: a "marketplace-ização" dos exames médicos no Brasil, pelo menos neste estágio, parece ser híbrida — parcialmente digital na descoberta e na comparação, ainda majoritariamente humana na confirmação e no fechamento.

Os desafios para esse tipo de negócio escalar nacionalmente são os mesmos identificados ao longo desta reportagem para o setor como um todo: construir e manter uma rede de parceiros confiável em centenas de cidades diferentes, padronizar informações de preço e disponibilidade que cada clínica trata de forma distinta, garantir algum nível de controle de qualidade sobre prestadores que a plataforma não opera diretamente, e equilibrar o custo de aquisição de clientes — tipicamente alto em mercados hiperlocais e de baixa recorrência, como exames médicos — com a margem de intermediação que a rede parceira está disposta a ceder. Esse é, em essência, o teste que qualquer marketplace de exames no Brasil — SPASS incluída — precisa superar para provar que o modelo é sustentável em escala, e não apenas em nichos geográficos específicos.

A pergunta de fundo permanece em aberto: o mercado de exames está de fato preparado para uma lógica de marketplace digital, ou as particularidades regulatórias, de confiança e de infraestrutura física da saúde tornam esse modelo estruturalmente mais lento de escalar do que em outros setores da economia? A resposta, a julgar pelo estágio ainda inicial e fortemente dependente de atendimento humano observado mesmo entre os players que se autodenominam pioneiros, parece ser: sim, é possível — mas de forma mais gradual, mais híbrida e mais dependente de confiança pessoal do que os modelos de marketplace bem-sucedidos em outros setores da economia digital brasileira.

Da consulta ao resultado: a jornada fragmentada do paciente

Reconstituir o caminho de um paciente comum ajuda a visualizar por que esse mercado atrai tanto interesse de empreendedores digitais. O trajeto típico envolve, no mínimo, dez etapas distintas: a consulta médica; a emissão do pedido de exame; a busca por um local para realizá-lo; a pesquisa de preços entre diferentes opções; a avaliação de distância e localização; a checagem de disponibilidade de horário; o agendamento propriamente dito; a realização do exame, muitas vezes com preparo prévio (jejum, suspensão de medicamentos, dieta específica); a espera pelo resultado; e, finalmente, o retorno ao médico para interpretação do laudo.

Em cada uma dessas etapas, diferentes atores podem estar envolvidos — o próprio médico, a secretária da clínica, o laboratório, a operadora de saúde (quando existe), o SUS (quando é o caso) e, mais recentemente, uma camada de tecnologia que tenta unir alguns desses elos. A fragmentação dessa jornada é, ao mesmo tempo, o problema que motiva o surgimento de marketplaces e telemedicinas integradas, e a razão pela qual nenhuma solução isolada resolveu, até agora, o problema por completo. Uma plataforma de agendamento resolve a etapa de busca e comparação, mas não controla o preparo do exame, nem garante o retorno do paciente ao médico com o laudo em mãos. Uma teleconsulta resolve o primeiro contato médico, mas ainda depende de uma rede física de laboratórios e clínicas de imagem para o restante da jornada — que, como visto, segue extremamente concentrada geograficamente.

O ecossistema ideal, do ponto de vista de eficiência, integraria telemedicina, pedido médico digital, busca por exame, agendamento, entrega de resultado e retorno ao médico em um fluxo único. Esse ecossistema, hoje, existe apenas parcialmente, em iniciativas isoladas — e nenhuma empresa brasileira consolidou, até o momento desta reportagem, esse ciclo completo em escala nacional e para todas as modalidades de exame.

Inteligência artificial: infraestrutura, não mais promessa

Depois de anos sendo tratada como tendência futura, a inteligência artificial na radiologia brasileira passou, segundo especialistas ouvidos por veículos especializados do setor, a ser encarada como infraestrutura operacional — não mais uma novidade experimental. Em painel realizado durante o Congresso Brasileiro de Radiologia de 2025 (CBR25) e reportado pela Abramed, o médico Ademar Paes Jr., sócio de uma clínica de imagem em Florianópolis, argumentou que o segmento de imagem é particularmente fértil para IA por reunir quatro fatores raros combinados: o uso de padrões técnicos interoperáveis, como o formato DICOM; a maturidade já alcançada pelos algoritmos de reconhecimento de imagem; um ambiente historicamente intensivo em capital, o que facilita investimento contínuo em tecnologia; e um volume crescente de publicações científicas na área. Segundo ele, a atual fase de inovação do setor está menos ligada a novos equipamentos (hardware) e mais a softwares de apoio ao diagnóstico.

As aplicações já em uso comercial no Brasil, segundo levantamentos de veículos especializados como o portal Star e a empresa de tecnologia Pixeon, incluem organização automática de filas de exames por prioridade clínica, aceleração da emissão de laudos, e apoio à detecção de padrões em imagens — sem substituir a decisão final do radiologista, que segue sendo o responsável legal pelo laudo. Para operar comercialmente no país, qualquer sistema de IA voltado à análise de imagens médicas precisa de aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) — equivalente brasileiro da FDA americana nesse tipo de regulação.

É importante, neste ponto, separar com clareza o que já é realidade operacional do que ainda é promessa. Ganhos de produtividade documentados — como a redução de cerca de 36% no tempo de exame de ressonância com tecnologias de reconstrução por IA, mencionada anteriormente — já acontecem em unidades específicas de grandes redes. Já a substituição do radiologista, a eliminação total de erros de diagnóstico ou a democratização instantânea do acesso a laudos especializados em todo o território nacional seguem sendo, no melhor dos cenários, objetivos de médio prazo, sujeitos a barreiras regulatórias, de validação clínica e de viés algorítmico — temas que a comunidade médica e regulatória brasileira ainda discute ativamente, sem consenso definitivo sobre limites de responsabilidade em caso de erro assistido por IA.

A desigualdade que a tecnologia sozinha não resolve

Os números já apresentados ao longo desta reportagem convergem para uma conclusão difícil de contornar: o acesso ao diagnóstico sofisticado no Brasil é profundamente desigual, e essa desigualdade tem geografia definida. As regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste concentram as maiores taxas de equipamentos de ressonância magnética por habitante do país; Norte e Nordeste ficam sistematicamente atrás, tanto na presença de máquinas quanto, por consequência, no tempo de espera e na necessidade de deslocamento do paciente até um centro maior. A justificativa técnica mais citada por especialistas do setor — a necessidade de infraestrutura consolidada, como energia estável e presença de radiologistas qualificados, para viabilizar a instalação de equipamentos de alto custo — ajuda a explicar o fenômeno, mas não o resolve.

Essa desigualdade é reforçada pela sobreposição entre acesso privado e acesso geográfico: como cerca de metade do parque nacional de ressonância magnética pertence à rede privada, e apenas um quarto da população tem acesso a planos de saúde, o cruzamento dessas duas variáveis — quem tem plano e onde os equipamentos estão instalados — favorece duplamente as regiões mais ricas do país. Um morador de uma capital do Sudeste com plano de saúde tem, ao mesmo tempo, mais equipamentos por perto e mais chance de ter cobertura privada para usá-los sem custo direto. Um morador do interior da Amazônia sem plano de saúde enfrenta as duas barreiras somadas: menos equipamentos na região e nenhuma cobertura que reduza o custo de deslocamento até onde eles existem.

É nesse ponto que a promessa de digitalização e de plataformas de agendamento encontra seu limite mais evidente. Uma plataforma digital pode, na melhor das hipóteses, tornar mais eficiente a busca por um exame dentro da capacidade instalada já existente em uma região — reduzindo tempo ocioso de máquinas, aumentando a taxa de ocupação, dando visibilidade a clínicas menores que não têm orçamento de marketing. O que nenhuma plataforma resolve sozinha é a ausência física do equipamento onde ele simplesmente não existe. Não basta criar uma vitrine digital de exames se, na cidade do paciente, não há nenhuma clínica de ressonância magnética a menos de algumas horas de distância. Nesse sentido, a transformação digital do diagnóstico brasileiro tende a amplificar a eficiência onde já existe capacidade instalada, mas tem alcance limitado sobre o problema estrutural mais grave do setor: a distribuição física desigual dos equipamentos pelo território nacional — um problema que depende, em última instância, de investimento público e privado direto em infraestrutura, não apenas de software.

A conta que ninguém vê: a economia por trás de uma clínica de diagnóstico

Do lado da oferta, operar uma clínica de diagnóstico por imagem é um negócio de capital intensivo e margens estreitas quando comparado a outros setores de serviços. O investimento inicial em um único equipamento de ressonância magnética já supera, como visto, R$ 5 milhões — sem contar a obra civil especializada, blindagem eletromagnética das salas, sistemas de climatização específicos e contratos de manutenção com o fabricante, tipicamente cobrados em dólar. A esse capital fixo somam-se custos recorrentes: energia elétrica (equipamentos de imagem são grandes consumidores), insumos de contraste, sistemas de gestão de imagem (PACS/RIS), folha de pagamento de radiologistas — profissão que exige formação médica especializada e remuneração compatível — e, cada vez mais, contratos de licenciamento de softwares de inteligência artificial.

Nesse contexto, a taxa de ocupação do equipamento se torna a variável mais decisiva para a rentabilidade do negócio. Um aparelho de ressonância magnética parado às 22h de uma terça-feira representa, na prática, capital imobilizado sem retorno naquele intervalo. É exatamente essa lacuna — horários ociosos em clínicas que já pagaram pelo equipamento, mas não conseguem preenchê-lo com demanda suficiente — que sustenta a lógica econômica por trás dos marketplaces de exames descritos anteriormente: para uma clínica pequena ou média, aceitar pacientes vindos de uma plataforma digital, mesmo pagando uma comissão de intermediação, pode ser mais vantajoso do que manter o equipamento ocioso, desde que o volume adicional de pacientes compense o custo da comissão sem canibalizar a base de clientes que já chegava por conta própria.

O peso da depreciação e da dívida de aquisição de equipamentos aparece com clareza nos próprios balanços dos grandes grupos do setor: no caso do Grupo Fleury, a análise da consultoria financeira Monitor Mercantil aponta que, embora a receita do grupo tenha mais que dobrado em quatro anos — em grande parte via aquisições —, o lucro líquido ficou praticamente estagnado em torno de R$ 0,60 bilhão entre 2024 e 2025, com a margem líquida recuando de 9,1% em 2021 para 7,2% em 2025. A diferença, segundo a análise, está justamente no peso crescente da depreciação dos ativos adquiridos e das despesas financeiras da dívida usada para financiar aquisições — um retrato numérico de como o crescimento por escala, nesse setor, nem sempre se traduz em rentabilidade proporcional.

Quem vai controlar a porta de entrada do paciente

Historicamente, o ponto de entrada do paciente no sistema de diagnóstico brasileiro era definido por poucos atores: o próprio pedido médico em papel, o hospital onde o médico atendia, a operadora de saúde que credenciava determinada rede, ou o laboratório de bairro com o qual a família já tinha uma relação de confiança havia anos. Esse cenário está mudando, e a disputa pela atenção — e pela confiança — do paciente ganhou novos concorrentes: plataformas digitais de agendamento, aplicativos de telemedicina, marketplaces de exames, empresas de benefícios corporativos com redes próprias de saúde, e, ainda de forma incipiente, ferramentas baseadas em inteligência artificial capazes de recomendar exames ou interpretar sintomas antes mesmo do contato com um médico.

A questão de fundo, que nenhum ator do setor resolveu por completo até o momento desta reportagem, é para onde essa disputa caminha. Um caminho possível é a desintermediação: pacientes buscando diretamente clínicas e laboratórios por meio de busca online, comparando preços de forma independente, sem depender de nenhum intermediário além do próprio mecanismo de busca. Outro caminho é a reintermediação digital: o surgimento de novos "donos" da relação com o paciente — sejam marketplaces especializados em exames, sejam grandes ecossistemas de telemedicina que controlam o funil desde a consulta inicial até o encaminhamento para exames dentro de sua própria rede parceira, capturando valor em cada etapa da jornada. Um terceiro caminho, mais provável no curto e médio prazo dado o estágio ainda híbrido observado nesta reportagem, é a coexistência: grandes redes verticalizadas como Fleury e Dasa continuando a capturar pacientes por marca, tradição e cobertura de convênio; plataformas digitais capturando uma fatia específica de pacientes particulares mais sensíveis a preço e conveniência; e o SUS continuando a ser, para a maioria da população idosa do país — mais de 80% dos brasileiros com 60 anos ou mais dependem exclusivamente do sistema público, segundo o Estudo Longitudinal da Saúde do Idoso citado por reportagem publicada em julho de 2026 —, a porta de entrada mais relevante, independentemente de quanta inovação digital surja no segmento privado.

O diagnóstico do futuro

Projetar os próximos cinco a dez anos do mercado brasileiro de exames exige combinar tendências que já são visíveis hoje com a cautela devida diante de um setor que, como esta reportagem mostrou, ainda carece até de estatísticas consolidadas sobre seu próprio tamanho.

O fator mais previsível é demográfico, e não tecnológico: o Brasil terá, segundo projeções do IBGE, mais de 65 milhões de pessoas com 60 anos ou mais até 2050 — cerca de 30% da população total, ante os pouco mais de 35 milhões registrados em 2025. Como a demanda por procedimentos diagnósticos cresce de forma acentuada a partir dos 50 anos e atinge seu pico entre os 70 e 79 anos, segundo o próprio Painel Abramed, esse envelhecimento populacional deve seguir sendo, por si só, o principal motor estrutural de crescimento do setor — independentemente de qualquer inovação tecnológica ou digital que venha a ocorrer. Isso significa mais pressão sobre um sistema que já é geograficamente desigual, e mais urgência para que investimentos em capacidade instalada — não apenas em software — cheguem também às regiões hoje mais desassistidas.

No campo tecnológico, a tendência mais consolidada é a de que a inteligência artificial deixe de ser tratada como inovação pontual e passe a ser parte da infraestrutura padrão de operação de clínicas e hospitais — auxiliando triagem, priorização de exames urgentes, redução de tempo de exame e agilidade na emissão de laudos, sempre sob supervisão médica responsável e dentro dos limites que a regulação da Anvisa e do CFM impuserem. A teleradiologia deve continuar sendo o principal mecanismo prático de redução de desigualdade no acesso à interpretação especializada de exames — ainda que, como visto, ela não resolva a ausência física de equipamentos nas regiões mais carentes.

No campo dos negócios, é razoável esperar que a consolidação continue sendo a estratégia dominante entre os grandes grupos — Fleury seguindo como consolidador ativo em um mercado ainda fragmentado, Dasa tentando provar a sustentabilidade de seu plano de reestruturação focado em diagnósticos —, ao mesmo tempo em que plataformas digitais e marketplaces de exames, com a SPASS Exames como um exemplo entre outros que devem surgir ou se fortalecer, buscam espaço na intermediação entre pacientes e a extensa rede de clínicas e laboratórios independentes que resiste, e provavelmente continuará resistindo, à consolidação total do setor. O sucesso desses modelos dependerá menos de tecnologia e mais da capacidade de resolver, de forma sustentável, os mesmos desafios que qualquer negócio de rede enfrenta: confiança do paciente, qualidade consistente dos prestadores parceiros e um custo de aquisição de clientes compatível com a margem que a intermediação de exames médicos, um serviço de baixa recorrência e alta sensibilidade, permite capturar.

A integração entre telemedicina, pedido médico digital, agendamento e entrega de resultado — o ecossistema completo descrito ao longo desta reportagem — segue sendo, mais do que uma realidade consolidada, uma direção para a qual o setor caminha de forma incremental, elo por elo, sem que nenhuma empresa brasileira tenha, até o momento, unificado essa jornada em escala nacional. A transparência de preços, por sua vez, tende a aumentar à medida que mais informação circula publicamente — seja por meio de plataformas digitais, seja por pressão regulatória sobre a saúde suplementar —, mas dificilmente eliminará por completo a variação de valores que hoje caracteriza o setor, já que parte dela reflete diferenças reais de custo, tecnologia e localização, e não apenas falta de informação.

Se há uma conclusão segura a se extrair de toda essa pesquisa, é que o mercado de exames e diagnósticos brasileiro não está prestes a ser "disrupcionado" da noite para o dia por nenhuma tecnologia isolada. Ele está, isso sim, em um processo lento e desigual de modernização — puxado por uma demanda demográfica que não dá sinais de desaceleração, restringido por uma desigualdade regional que a tecnologia sozinha não resolve, e disputado por grandes grupos consolidadores e por uma nova geração de plataformas digitais que ainda está descobrindo, na prática, o quanto do modelo de marketplace realmente se aplica — e o quanto ainda depende, como mostrou o caso analisado nesta reportagem, de uma conversa humana no WhatsApp.

Fontes

Esta reportagem foi construída a partir de pesquisa em fontes públicas e primárias, incluindo: Painel Abramed – O DNA do Diagnóstico (6ª e 7ª edições, Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica); Mapa Assistencial 2025 e dados históricos da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS); Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES/DataSUS); Boletim Econômico da ABIIS (Associação Brasileira da Indústria de Alta Tecnologia de Produtos para Saúde); relatórios financeiros e comunicados ao mercado do Grupo Fleury (FLRY3) e da Dasa (DASA3); levantamentos trimestrais de fusões e aquisições da consultoria KPMG; estudos setoriais da Moody's Local e da consultoria J2L Partners; estimativas de mercado das consultorias internacionais Mordor Intelligence, IMARC Group e Grand View Research; análise de dados da LifesHub sobre o parque nacional de equipamentos de imagem, publicada pela revista Exame; projeções demográficas do IBGE; e a legislação vigente sobre telemedicina (Lei 14.510/2022 e Resolução CFM 2.314/2022). Dados de preços de exames particulares foram tratados, ao longo do texto, como estimativas privadas e editoriais, não como valores oficiais ou tabelados — e assim devem ser lidos pelo leitor. Onde não foi possível verificar de forma independente uma afirmação de posicionamento comercial (como a alegação de pioneirismo da SPASS Exames), isso foi explicitado no texto. Contém conteúdo de IA.

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