O corpo inteiro: como a saúde da mulher deixou de ser nicho e virou o novo mapa da saúde no Brasil
Da primeira menstruação ao climatério, passando pelo coração, pelo cérebro, pelo INSS e pela conta bancária — uma investigação sobre décadas de lacunas médicas que estão se transformando, agora, num dos mercados mais dinâmicos da saúde brasileira
Saúde Concierge
8/24/202639 min read
Duas mulheres morrem por causas cardíacas a cada 12 minutos no Brasil, segundo estimativa da cardiologista Ieda Jatene, do grupo de Doenças Cardiovasculares na Mulher do Hcor, divulgada em 2025. No mesmo ano em que esse dado veio a público, o mercado brasileiro de canetas emagrecedoras como Ozempic, Wegovy e Mounjaro — hoje popularizadas majoritariamente por mulheres — já movimentava algo entre R$ 10 bilhões e R$ 13,3 bilhões por ano, segundo estimativas do banco suíço UBS e do Canal Farmacêutico. No mesmo período, o Brasil registrava sua pior razão de mortalidade materna em 25 anos — para, na sequência, recuar para níveis dentro da meta da ONU. E, entre uma coisa e outra, um exército de startups batizadas de "femtechs" tentava captar uma fatia de um mercado que consultorias internacionais projetam, a depender da metodologia, entre US$ 50 bilhões e US$ 1,1 trilhão até o fim desta década.
Esses quatro fatos, sozinhos, já bastariam para desmontar a ideia mais persistente sobre a saúde da mulher no Brasil: a de que se trata de um assunto que começa na ginecologia e termina na maternidade. Na prática, a saúde feminina atravessa o coração, o metabolismo, os ossos, o sono, a mente, a pele, os hormônios e o bolso — e, em cada uma dessas frentes, carrega ao mesmo tempo desigualdades históricas e um apetite crescente de investidores, hospitais, farmacêuticas e governos.
Esta reportagem é uma tentativa de mapear esse território inteiro: de onde vêm as lacunas, o que os dados oficiais realmente mostram sobre o corpo feminino ao longo da vida, e por que, depois de décadas tratada como assunto de nicho, a saúde da mulher está sendo redesenhada como um dos setores mais estratégicos — e mais disputados — da economia da saúde.
Muito além do útero
Por décadas, a "saúde da mulher" foi, na prática, sinônimo de ginecologia e obstetrícia — consultas de rotina, exames preventivos, pré-natal e parto. Esse recorte não é errado, mas é insuficiente. Ele deixa de fora o fato de que mulheres adoecem, se recuperam, envelhecem e morrem de formas que envolvem — e muitas vezes são moldadas por — todo o resto do corpo: coração, cérebro, ossos, metabolismo, sistema imunológico.
Os números institucionais confirmam essa amplitude. As doenças cardiovasculares, não o câncer de mama, são a principal causa de morte entre mulheres brasileiras, tendo matado 182.066 mulheres em 2023, segundo levantamento do Observatório da Saúde Cardiovascular do Instituto Nacional de Cardiologia, vinculado ao Ministério da Saúde. A obesidade, segundo o Vigitel (Ministério da Saúde), passou de 11,8% da população adulta em 2006 para mais de 24% em 2023 — com prevalência hoje ligeiramente maior entre mulheres do que entre homens. Os transtornos de ansiedade e depressão atingem, segundo a pesquisa Covitel 2023, 34,2% e 18,1% das mulheres brasileiras, respectivamente — quase o dobro da prevalência observada entre homens em levantamentos como o Vigitel 2021 do Ministério da Saúde. E uma em cada dez brasileiras em idade reprodutiva convive com endometriose, doença inflamatória crônica que, segundo o Ministério da Saúde, ainda leva em média de três a oito anos para ser diagnosticada.
Nenhum desses números é, estritamente, um "problema ginecológico". São, isso sim, evidências de que o corpo feminino tem particularidades biológicas, hormonais e imunológicas que alteram como doenças comuns a ambos os sexos se manifestam, evoluem e são — ou deixam de ser — diagnosticadas. A diferença na expectativa de vida entre os sexos (79,7 anos para mulheres e 73,1 para homens em 2023, segundo o IBGE) é, em si, um indício de que tratar a saúde feminina como um apêndice da saúde geral é, na melhor das hipóteses, incompleto.
É importante, no entanto, evitar simplificações. Nem toda diferença de desfecho entre homens e mulheres tem uma causa biológica estabelecida — muitas resultam de fatores sociais, comportamentais e de acesso a serviços, e a ciência ainda debate a proporção exata de cada fator em cada doença. O que há de consolidado, e que esta reportagem tentará mostrar seção por seção, é que a soma dessas particularidades — biológicas e sociais — configura uma jornada de saúde distinta o suficiente para justificar um olhar próprio, e não apenas o velho recorte reprodutivo.
Uma jornada, não um único episódio
Infância e adolescência: o início de um padrão
A saúde da mulher começa muito antes da vida adulta. Na infância e adolescência, dois temas concentram a atenção de pediatras e sanitaristas: a educação sobre puberdade e menstruação, e a prevenção via vacinação.
A vacina contra o HPV, disponível gratuitamente pelo SUS para meninas de 9 a 14 anos desde 2014, é uma das principais ferramentas de prevenção ao câncer do colo do útero — capaz de evitar, segundo o Ministério da Saúde, até 58% dos casos. Ainda assim, a cobertura vacinal segue abaixo do ideal: entre 2013 e 2021, a cobertura da primeira dose em meninas foi de 76%, segundo estudo publicado na Revista Brasileira de Cancerologia (INCA) — patamar insuficiente para a meta de 90% que a Organização Mundial da Saúde considera necessária para colocar a eliminação do câncer cervical no horizonte.
A desigualdade no acesso a produtos de higiene menstrual — o chamado tema da "pobreza menstrual" — também ganhou centralidade nos últimos anos, levando à Lei 14.214/2021, que instituiu o Programa de Proteção e Promoção da Saúde Menstrual, prevendo distribuição gratuita de absorventes a estudantes de baixa renda, mulheres em situação de rua e mulheres presas. A execução do programa, contudo, segue desigual entre estados e municípios — um padrão que se repetirá, como se verá adiante, em praticamente todas as frentes da saúde feminina no Brasil.
No campo da saúde mental, dados da Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE mostram que a prevalência de transtornos mentais entre mulheres já é significativamente maior que entre homens desde a faixa de 18 a 24 anos — um padrão que se solidifica, e não se inverte, ao longo da vida adulta.
Vida adulta: contracepção, fertilidade e a rotina que raramente é vista como prevenção
Na vida adulta, o eixo da saúde feminina passa por planejamento familiar, contracepção e saúde sexual — mas também, cada vez mais, por saúde mental e doenças crônicas que começam a se manifestar silenciosamente. É nesta fase que boa parte dos diagnósticos tardios de endometriose, síndrome do ovário policístico e doenças autoimunes (mais prevalentes em mulheres, como lúpus e tireoidite de Hashimoto) costuma emergir — anos depois do início dos sintomas.
É também nesta fase que se consolidam hábitos ligados a fatores de risco cardiovascular e metabólico — sedentarismo, alimentação, tabagismo — que, décadas depois, se converterão nas estatísticas de infarto, AVC e diabetes que dominam a saúde feminina após os 50 anos. Em outras palavras: a prevenção cardiovascular da mulher de 65 anos começa, na prática, na mulher de 25.
Gestação e maternidade: o Brasil que avançou e o Brasil que retrocedeu
Poucas áreas da saúde da mulher escancaram tão bem a desigualdade regional brasileira quanto a maternidade. A cobertura de pré-natal no país é, no agregado, alta: segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE, 97,4% das gestantes brasileiras relataram ter feito algum acompanhamento pré-natal. Mas cobertura de entrada não é o mesmo que cuidado completo.
Um estudo de 2026 conduzido por pesquisadores do Centro Internacional de Equidade em Saúde da Universidade Federal de Pelotas (ICEH/UFPel), em parceria com a organização Umane, analisou mais de 2,5 milhões de nascimentos registrados no Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc) em 2023 e encontrou uma queda abrupta ao longo do pré-natal: 99,4% das gestantes chegam à primeira consulta, mas apenas 78,1% completam as sete consultas mínimas recomendadas — uma perda que atinge desproporcionalmente mulheres indígenas (apenas 51,5% completam o ciclo, contra 84,3% das brancas), mulheres sem escolaridade e moradoras da Região Norte.
A mortalidade materna conta uma história ainda mais dramática de avanço e recuo. Depois de cair para 57,9 mortes por 100 mil nascidos vivos em 2019, a razão de mortalidade materna (RMM) brasileira disparou durante a pandemia — para 71,9 (ou 74,7, a depender da fonte) em 2020 e para uma faixa entre 100,9 e 110 mortes por 100 mil nascidos vivos em 2021, segundo dados do Ministério da Saúde compilados pelo Observatório Obstétrico Brasileiro (OOBr) e pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS). A coordenadora do OOBr, Agatha Rodrigues, chegou a declarar, em 2023, que o país havia "voltado aos níveis inaceitáveis de 25 anos atrás". Com o fim da fase aguda da pandemia, a RMM recuou para 54,5 mortes por 100 mil nascidos vivos em 2022, segundo dados do SIM/DATASUS — dentro, portanto, da meta de 30 a ser perseguida até 2030 junto à ONU, mas ainda distante do patamar de cerca de 10 mortes por 100 mil observado em países desenvolvidos. A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) estima que nove em cada dez mortes maternas no Brasil seriam evitáveis.
A saúde mental perinatal é outro ponto cego histórico. Um estudo nacional da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Fiocruz), publicado em 2016 a partir de mais de 23 mil entrevistas com mães brasileiras, encontrou sintomas de depressão pós-parto em 26,3% delas — mais de uma em cada quatro, um patamar mais alto do que a média estimada pela OMS para países de baixa renda (19,8%). Estudos regionais menores, com metodologias distintas, chegam a encontrar prevalências ainda maiores, entre 30% e quase 40% — a variação metodológica é grande, mas todos os estudos nacionais convergem para o mesmo diagnóstico: a depressão pós-parto é subdiagnosticada e subtratada no SUS e na rede privada.
Menopausa e meia-idade: o mercado que a medicina esqueceu
Se há uma fase da vida da mulher historicamente relegada a segundo plano — tanto pela medicina quanto pelo mercado —, é o climatério. Segundo dados do IBGE citados pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), cerca de 17 milhões de brasileiras estão hoje na faixa etária do climatério (40 a 65 anos), das quais aproximadamente 9,2 milhões já estão na pós-menopausa. A idade média da menopausa no Brasil é 48 anos.
Os sintomas são amplos e, segundo estudo publicado no periódico científico internacional Climacteric — conduzido por pesquisadores da Faculdade de Medicina de Jundiaí, da Faculdade de Medicina do ABC, da USP e da Universidade de Pavia (Itália) com 1,5 mil mulheres entre 45 e 65 anos —, afetam 73,1% das brasileiras na transição e 78,4% na pós-menopausa: ondas de calor, insônia, dores articulares, ressecamento vaginal, alterações de humor, falhas de memória. Em 2024, a Febrasgo e a Sociedade Brasileira de Cardiologia publicaram, em conjunto, as primeiras Diretrizes Brasileiras sobre Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa — reconhecimento tardio, mas formal, de que a queda de estrogênio altera de forma mensurável o perfil de risco cardiovascular e ósseo da mulher a partir dessa fase.
Apesar da escala do fenômeno, o climatério permaneceu, por décadas, fora do radar de investimentos em saúde. Isso começou a mudar. Estimativas da consultoria Grand View Research avaliaram o mercado global de produtos e serviços para menopausa em US$ 15,4 bilhões em 2021, com projeção de crescimento anual de 5,29% até 2030; já a consultoria especializada Femhealth Insights projeta que esse mercado alcance US$ 24,4 bilhões até 2030 — o segmento de crescimento mais acelerado dentro do universo femtech, segundo a mesma fonte. No Brasil, um levantamento próprio da startup Plenapausa (fundada em 2021) indicou que 40% das mulheres entrevistadas já haviam cogitado pedir demissão por causa da gravidade dos sintomas da menopausa — um dado privado, não uma pesquisa de base populacional, mas que ilustra o tamanho do impacto ocupacional do tema. Startups mais recentes, como a Raquel Menopausa (lançada oficialmente em abril de 2025), já somam dezenas de milhares de downloads.
Envelhecimento: o Brasil que está prestes a ficar mais velho — e mais feminino
O Brasil envelhece, e envelhece de forma feminina. Segundo o IBGE, a esperança de vida aos 60 anos, em 2023, era de 24 anos para mulheres e 20,7 para homens — ou seja, mulheres que chegam aos 60 têm, em média, praticamente um quarto de século pela frente. A projeção do IBGE é que, a partir de 2046, pessoas com 60 anos ou mais representem 28% da população brasileira, subindo para 37,8% em 2070.
Essa longevidade maior, no entanto, não vem acompanhada, automaticamente, de mais anos de vida saudável — e é aqui que entram temas como osteoporose, fragilidade e demências. Estudos brasileiros mais antigos, como o Brazilian Osteoporosis Study (BRAZOS), de base populacional, e levantamentos regionais em mulheres pós-menopausa, encontraram prevalências de osteoporose de 18,8% no colo do fêmur e 28,8% na coluna lombar entre mulheres acima de 50 anos atendidas em serviços de referência — números que, mesmo datados, ilustram a magnitude de um problema de saúde óssea concentrado no sexo feminino, dado o papel da queda de estrogênio na perda de massa óssea pós-menopausa. O envelhecimento populacional, somado à maior longevidade feminina, projeta um Brasil com demanda crescente por cuidados de longa duração — geriatria, reabilitação, prevenção de quedas e fraturas, e suporte a cuidadores, majoritariamente mulheres também do lado de quem cuida.
Viver mais não é o mesmo que viver melhor
A comparação entre a expectativa de vida de homens e mulheres brasileiras costuma ser lida como uma vitória inequívoca das mulheres. Em parte, é: elas vivem, em média, 6,6 anos a mais que os homens, segundo o IBGE (dados de 2023). Mas o debate especializado sobre "anos de vida saudável" versus "anos de vida totais" é mais complexo, e aqui a reportagem precisa diferenciar consenso de hipótese.
O que está consolidado: mulheres apresentam maior prevalência de doenças crônicas não fatais e de condições que causam dor e incapacidade — como enxaqueca, fibromialgia, doenças autoimunes, depressão e ansiedade — enquanto homens concentram uma parcela desproporcional das mortes violentas e por causas externas (91,4% das mortes violentas no Brasil em 2023 tiveram homens como vítimas, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública). Esse padrão é conhecido na literatura internacional como "paradoxo de morbimortalidade de gênero": mulheres vivem mais, mas relatam pior saúde percebida e mais anos vividos com limitação.
O que é debate em desenvolvimento, e não consenso fechado: o quanto desse padrão decorre de diferenças biológicas puras (hormonais, imunológicas, genéticas) versus quanto decorre de vieses sociais — como sub-representação histórica de mulheres em ensaios clínicos, tendência (documentada internacionally, mas com quantificação ainda debatida no contexto brasileiro específico) de sintomas femininos serem minimizados em serviços de emergência, e sobrecarga de tarefas de cuidado não remunerado, que consome tempo que poderia ser dedicado a autocuidado e prevenção. O próprio caso da endometriose — uma doença "tecnicamente não muito complicada" de diagnosticar, nas palavras de especialistas ouvidos pela imprensa médica, mas que leva de três a dez anos para ser identificada, segundo diferentes levantamentos do Ministério da Saúde e da FEBRASGO — é citado com frequência como evidência de que dor crônica feminina tende a ser normalizada, tanto por pacientes quanto por profissionais de saúde, antes de ser investigada a fundo.
A desigualdade de acesso — entre regiões, entre rede pública e privada, entre níveis de renda e escolaridade — permanece o fator mais robustamente documentado por trás das piores estatísticas de saúde feminina no Brasil, como os capítulos sobre pré-natal, mortalidade materna e câncer, mais adiante, deixam claro.
O coração que ninguém vigiava
Se existe um mito estatístico a ser derrubado nesta reportagem, é o de que doença cardíaca é "coisa de homem". Os números do Ministério da Saúde dizem o oposto: em 2023, as doenças cardiovasculares mataram 182.066 mulheres no Brasil, representando 47,2% de todas as mortes cardiovasculares do país — proporção estável desde os anos 2000, segundo o levantamento "Evolução da mortalidade cardiovascular em mulheres", do Observatório da Saúde Cardiovascular do Instituto Nacional de Cardiologia.
Dentro desse total, 37.332 mulheres morreram de infarto agudo do miocárdio em 2023 — 40% do total de óbitos por infarto no país — e 18.571 morreram por hipertensão, causa em que as mulheres já são maioria: 54,4% dos 34.155 óbitos por hipertensão em 2023. Segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia, com base em dados do Global Burden of Disease publicados na revista The Lancet, as doenças cardiovasculares respondem por 35% do total de mortes de mulheres no mundo. A cardiologista Ieda Jatene, do Hcor, resume o problema de forma direta: o coração feminino é afetado tanto por fatores de risco "clássicos" — colesterol alto, sedentarismo, má alimentação, tabagismo — quanto por fatores específicos do sexo feminino, como diabetes gestacional, hipertensão na gravidez e a própria transição menopausal, que altera o perfil lipídico e vascular.
Por que esse risco é subestimado? Parte da explicação está no imaginário popular: campanhas de conscientização cardiovascular historicamente miraram o público masculino, e sintomas de infarto em mulheres podem se apresentar de forma atípica (náusea, fadiga, dor nas costas, em vez da clássica dor no peito irradiando para o braço), o que pode atrasar tanto a busca por socorro quanto o diagnóstico em pronto-socorro — um fenômeno amplamente descrito na literatura cardiológica internacional, embora sua magnitude exata no contexto brasileiro ainda demande mais pesquisa nacional específica. O resultado prático, segundo a SBC, é que doenças cardiovasculares e AVC juntos já matam uma em cada três mulheres brasileiras por ano — proporção bem maior do que a de mortes por câncer de mama, que é de uma em cada 30 diagnosticadas, segundo a mesma fonte.
Câncer: o Brasil que rastreia bem, mas tarde — e desigual
O câncer segue sendo uma das frentes mais visíveis, e mais bem documentadas, da saúde feminina brasileira, muito em função do trabalho sistemático do Instituto Nacional de Câncer (INCA). Segundo a Estimativa 2023-2025 do INCA, o Brasil deve registrar 704 mil novos casos de câncer por ano nesse triênio, com o câncer de mama respondendo por 73.610 casos anuais — o tipo mais incidente entre mulheres, à frente do câncer de colo do útero (17.010 casos/ano) e do câncer de ovário (mais de 7 mil casos/ano). Em 2023, o câncer de mama já havia causado mais de 20 mil óbitos no país, segundo publicação mais recente do próprio INCA — sendo, disparadamente, a principal causa de morte por câncer entre as brasileiras.
O rastreamento, porém, segue aquém do necessário. Segundo o mesmo relatório do INCA, a cobertura mamográfica bienal recomendada para mulheres de 50 a 69 anos ficou em 58,3% em 2019 — abaixo dos 70% considerados adequados internacionalmente — e uma pesquisa de 2023 mostrou que metade das mulheres entre 40 e 49 anos não havia feito mamografia nos 18 meses anteriores. No câncer do colo do útero — doença que, segundo a Febrasgo, é a que mais mata mulheres brasileiras até os 36 anos —, mais de 90% dos casos têm origem em infecção persistente pelo HPV, o que torna a vacinação e o rastreamento citopatológico (Papanicolau) ferramentas de altíssimo custo-efetividade; ainda assim, a cobertura vacinal segue distante da meta de 90% da OMS, e as maiores taxas de incidência e mortalidade da doença se concentram nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste — nas palavras da Febrasgo, um retrato de "desigualdades no acesso à vacinação, ao rastreamento e ao tratamento".
O câncer de ovário é o caso mais dramático de subdiagnóstico: por não haver, até hoje, um exame de rastreamento populacional eficaz — ao contrário do que ocorre com mama (mamografia) e colo do útero (Papanicolau) —, cerca de 75% dos casos são identificados apenas em estágios avançados, segundo dados do INCA citados pela Febrasgo, o que reduz drasticamente as chances de cura: a taxa de sobrevida em cinco anos para câncer de ovário gira em torno de 45%, contra 89% no câncer de mama, segundo comparação amplamente reportada com base em dados internacionais.
A cabeça também dói: saúde mental feminina em números
Se há um único indicador capaz de resumir a sobrecarga da saúde mental feminina no Brasil, é este: segundo a pesquisa Covitel 2023, promovida pelo Ministério da Saúde, 34,2% das mulheres brasileiras convivem com ansiedade e 18,1% com depressão — praticamente o dobro das taxas observadas entre homens em levantamentos comparáveis, como o Vigitel 2021, que registrou diagnóstico autorreferido de depressão em 14,7% das mulheres contra 7,3% dos homens. A Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE (2019) confirma o padrão em outra métrica: prevalência de transtornos mentais de 8,6% entre mulheres, contra 4,1% entre homens — mais que o dobro, mesmo após ajuste estatístico por outros fatores. Uma pesquisa da organização não governamental Think Olga, de 2023 e 2024, foi ainda mais direta ao apontar que sete em cada dez diagnósticos de ansiedade e depressão no país são de mulheres.
As razões apontadas por especialistas e organizações como a Think Olga combinam fatores biológicos (oscilações hormonais ao longo do ciclo, gestação e climatério) com fatores sociais bem documentados: sobrecarga de trabalho doméstico e de cuidado — mulheres dedicam, segundo a mesma pesquisa, o dobro do tempo dos homens a tarefas de cuidado não remunerado —, pressão estética e exposição à violência de gênero, cujos impactos psicológicos são reconhecidos pela literatura em saúde pública, ainda que a mensuração precisa da relação causal varie entre estudos.
É nesse cenário que a telemedicina e a psicologia digital ganharam tração acelerada. Depois da regulamentação definitiva da telessaúde pela Lei 14.510/2022 e pela Resolução CFM 2.314/2022, o Brasil registrou mais de 30 milhões de teleconsultas em 2023 — salto de 172% frente ao período 2020-2022, segundo a Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde) —, com crescimento adicional de 53% a 57% entre 2023 e 2024, conforme dados da plataforma Doctoralia. Dentro desse universo, a psiquiatria é hoje a especialidade com maior adesão ao atendimento remoto: 15,9% das consultas — cerca de uma em cada seis — já acontecem online, segundo levantamento da plataforma BoaConsulta. No SUS, o volume de atendimentos em saúde mental também cresceu: 192 mil atendimentos apenas no primeiro semestre de 2025, alta de 20% frente ao mesmo período de 2023, segundo dados citados por levantamentos do setor de saúde digital.
Peso, metabolismo e a febre das canetas
Poucos temas de saúde pública avançaram tão rapidamente no debate nacional quanto a obesidade — e poucos setores da indústria farmacêutica cresceram tão rápido quanto o dos chamados agonistas de GLP-1, as "canetas emagrecedoras".
Os números de base são alarmantes por si só. Segundo o Vigitel (Ministério da Saúde), o excesso de peso entre adultos das capitais brasileiras saltou de 42,6% em 2006 para 62,6% em 2024, enquanto a obesidade (IMC igual ou superior a 30) passou de 11,8% para 25,7% no mesmo período — com o diabetes autorreferido subindo de 5,5% para 12,9%. Um levantamento da ANS em parceria com o Ministério da Saúde, específico da população com plano de saúde, mostrou em 2023 excesso de peso de 55,4% entre mulheres e 67,8% entre homens beneficiários da saúde suplementar — evidência de que, embora a obesidade propriamente dita seja hoje ligeiramente mais prevalente entre mulheres em diversos recortes etários, o excesso de peso agregado ainda pende, na média nacional, para o público masculino.
É nesse contexto que os medicamentos à base de semaglutida (Ozempic, Wegovy) e tirzepatida (Mounjaro) se tornaram um dos fenômenos comerciais mais rápidos da história recente da indústria farmacêutica no Brasil. Segundo levantamento da Close-Up International Brasil, agência de dados do Canal Farmacêutico, esses três produtos movimentaram juntos R$ 13,3 bilhões entre maio de 2025 e maio de 2026 — com o Mounjaro, da Eli Lilly, liderando com mais de R$ 8,5 bilhões em vendas no período, mesmo tendo chegado ao país apenas em maio de 2025. Outro levantamento, do portal Metrópoles com base em dados de mercado, mostrou que o segmento de GLP-1 como um todo saltou de R$ 1,8 bilhão em vendas em 2021 para R$ 10 bilhões em 2025 — um crescimento de cinco vezes em quatro anos, com o volume de unidades vendidas passando de 3,3 milhões para 8,9 milhões no mesmo intervalo. O banco UBS projeta que o mercado brasileiro de GLP-1 alcance cerca de R$ 11 bilhões em 2025 e quase dobre, para perto de R$ 20 bilhões, em 2026 — mesmo assim, segundo a mesma análise, a penetração do produto ainda seria de apenas 1,1% dos adultos com sobrepeso e 2,5% dos adultos obesos no país, o que sugere que o mercado está longe de esgotar seu potencial.
O crescimento explosivo desse mercado criou, por tabela, uma nova economia de serviços ao redor das canetas: acompanhamento nutricional, monitoramento de efeitos colaterais, clínicas especializadas em manejo de peso e programas corporativos de saúde metabólica passaram a se estruturar especificamente em torno desses pacientes — a maioria mulheres, segundo relatos recorrentes do setor farmacêutico e de varejo.
É preciso, no entanto, um alerta editorial claro: medicamentos GLP-1 não são solução universal, nem isenta de riscos. Tratam-se de medicamentos originalmente desenvolvidos para diabetes tipo 2, com indicação de uso para obesidade sujeita a critérios clínicos (IMC igual ou superior a 30, ou 27 com comorbidades associadas), que exigem prescrição médica, acompanhamento profissional continuado e avaliação individual de riscos e efeitos colaterais. A própria Anvisa reforçou, mais recentemente, a exigência de retenção de receita médica para a venda desses produtos — medida equivalente à já adotada para antibióticos —, justamente em resposta ao crescimento do uso popular e à preocupação com automedicação sem supervisão. Especialistas em obesidade insistem que o tratamento efetivo e sustentável do excesso de peso segue dependendo de uma abordagem multidisciplinar — médicos, nutricionistas, psicólogos e educadores físicos —, e não de uma solução farmacológica isolada.
Fertilidade: o mercado de ter um filho mais tarde
O adiamento da maternidade, combinado ao aumento da infertilidade — que, segundo a Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRH), afeta cerca de 15% dos casais brasileiros em idade reprodutiva, o equivalente a aproximadamente 20 milhões de pessoas —, tem impulsionado um dos setores mais dinâmicos, e mais desiguais, da saúde da mulher no Brasil: a reprodução assistida.
Os números de crescimento são consistentes entre diferentes levantamentos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), via seu Sistema Nacional de Produção de Embriões (SisEmbrio). Entre 2020 e 2022, o número de ciclos de fertilização in vitro realizados no país saltou de 33.058 para 42.338 — alta de 28%. Já entre 2020 e o ano seguinte, outro recorte do mesmo sistema mostrou o número de ciclos avançar de 34.623 para 45.952 — crescimento de 32,7% em um único ano. O número de embriões congelados também avançou: de 81.452 em 2020 para 107.830 em 2023, alta de mais de 32%, segundo dados mais recentes do SisEmbrio citados pela imprensa especializada.
O acesso, porém, é profundamente desigual. Um estudo do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), lançado em 2024 em parceria com a farmacêutica Organon, mapeou que o Brasil tem apenas 11 clínicas públicas de reprodução assistida em todo o território nacional — quatro delas em São Paulo — e que 77% de todas as clínicas do país, públicas e privadas, estão concentradas nas regiões Sudeste e Sul; apenas 6% do total são públicas. O custo de um ciclo completo de fertilização in vitro no setor privado, segundo o mesmo estudo, variava entre R$ 15 mil e R$ 100 mil em 2023, a depender do procedimento, do número de tentativas e da localidade — valor que, segundo médicos ouvidos pela imprensa especializada, frequentemente precisa ser multiplicado por dois ou três ciclos até a gestação ser bem-sucedida. Embora o SUS ofereça cobertura para fertilização in vitro em tese, a escassez de clínicas públicas resulta em filas de espera longas — um fator especialmente crítico neste tratamento, dado que a idade avançada reduz as taxas de sucesso do procedimento.
É esse cenário de demanda crescente e oferta pública limitada que abriu espaço para clínicas privadas especializadas e para startups de "fertilidade digital" — como a Oya Care, que desde 2020 oferece exames de fertilidade coletados em domicílio com teleconsulta associada — se posicionarem como pontes entre a mulher e um sistema de saúde ainda pouco preparado, estrutural e geograficamente, para dar conta da demanda.
Femtech: o nascimento de uma indústria com nome próprio
O termo "femtech" — contração de "female" e "technology" — foi cunhado em 2016 por Ida Tin, cofundadora do aplicativo dinamarquês Clue, voltado ao monitoramento do ciclo menstrual. Dez anos depois, o termo batiza um setor inteiro de startups, produtos e serviços dedicados especificamente a necessidades de saúde da mulher: menstruação, fertilidade, gestação, menopausa, saúde sexual, saúde mental, nutrição, diagnóstico e monitoramento hormonal.
Medir o tamanho exato desse mercado, porém, é um exercício traiçoeiro — e esta reportagem prefere expor a divergência entre fontes a fingir que existe um número único e confiável. Diferentes consultorias chegam a estimativas bastante distintas, e nem sempre é claro se cada uma mede a mesma coisa: a consultoria Arizton Advisory & Intelligence avaliou o mercado femtech global em mais de US$ 50 bilhões em 2023, com projeção de crescimento anual (CAGR) de 13,3% até 2026; já a organização Femtech Focus projeta que o setor global alcance US$ 1,1 trilhão até 2027 — uma ordem de grandeza inteiramente diferente, provavelmente por incluir uma definição bem mais ampla do que conta como "femtech" (incluindo, por exemplo, todo o mercado de bem-estar e beleza voltado a mulheres). O McKinsey Health Institute, em relatório mais recente, calculou que startups de femtech atraíram US$ 2,2 bilhões em investimentos ao longo dos últimos quatro anos — mas que esse valor representa apenas 3% de todo o financiamento global em saúde digital, com estimativas de tamanho de mercado variando entre US$ 500 milhões e US$ 1 bilhão, segundo a mesma fonte. Já o Pitchbook, provedor de dados de venture capital, projeta que investidores de risco destinem US$ 3 bilhões a femtechs até 2030 — o que, comparado aos US$ 2,2 bilhões acumulados nos últimos quatro anos segundo o McKinsey, sugeriria aceleração, mas moderada.
No Brasil, o quadro é de mercado ainda embrionário. Segundo mapeamento do Inside Healthtech Report, citado por diferentes veículos especializados, o país tinha, em levantamentos recentes, 23 startups dedicadas à saúde da mulher — um número pequeno se comparado às 542 healthtechs e às mais de 13,8 mil startups totais do ecossistema nacional, segundo a mesma fonte. Os investimentos também refletem essa imaturidade: de acordo com a plataforma de dados Distrito, femtechs brasileiras receberam US$ 14,3 milhões em aportes desde 2017 — dos quais US$ 10,2 milhões só em 2022, um salto de 560% em relação ao ano anterior, mas ainda um valor pequeno para os padrões do venture capital em saúde. Regionalmente, o cenário é ainda mais desafiador: segundo a Femtech Analytics, a América do Norte concentra cerca de 55% dos investimentos globais em femtech e a Europa, 25%, enquanto a América Latina como um todo responde por apenas 0,5% do total — cerca de US$ 140 milhões no ano analisado.
Por que, então, o interesse crescente? A resposta mais recorrente entre investidores e especialistas do setor é dupla: de um lado, o reconhecimento tardio de que metade da população mundial tem necessidades de saúde historicamente mal atendidas pelo sistema tradicional (o próprio setor de saúde reprodutiva concentra 25,8% dos investimentos globais em femtech, segundo a Femtech Analytics — sinal de que ainda é o segmento mais maduro dentro de um mercado nascente); de outro, a aposta de que menopausa, saúde mental feminina e nutrição são as próximas fronteiras de crescimento dentro desse universo, à medida que a população feminina envelhece e passa a viver mais anos na pós-menopausa.
A porta de entrada digital: telemedicina, apps e o risco dos dados
A digitalização da saúde tem sido, para muitas mulheres brasileiras — sobretudo fora dos grandes centros —, a primeira via de acesso real a cuidado especializado. A regulamentação definitiva da telemedicina no Brasil, via Lei 14.510/2022 e Resolução CFM 2.314/2022, destravou um crescimento expressivo: mais de 30 milhões de teleconsultas em 2023, alta de 172% frente ao triênio anterior, segundo a FenaSaúde, com novos saltos de mais de 50% ao ano registrados por plataformas como a Doctoralia entre 2023 e 2024. Em 2023, segundo dados setoriais, 77,8% dos estados brasileiros já integravam telemedicina ao SUS por meio de diferentes plataformas digitais — incluindo, em boa parte do Nordeste, o uso de WhatsApp como canal principal, uma solução de baixo custo, mas também um indicativo da precariedade da infraestrutura digital em regiões mais pobres.
Ainda assim, o abismo digital segue relevante: mais de 160 milhões de brasileiros, numa população de cerca de 215 milhões, ainda não têm acesso regular a serviços de saúde digital, segundo estimativas do setor citadas por levantamentos de mercado recentes, e a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2023 apontou 5,9 milhões de lares brasileiros sem qualquer acesso à internet.
Para além da telemedicina propriamente dita, o ecossistema de saúde digital feminina inclui aplicativos de monitoramento de ciclo menstrual e fertilidade, wearables capazes de rastrear temperatura basal e padrões de sono, e — mais recentemente — assistentes de inteligência artificial dedicados a sintomas específicos, como o aplicativo brasileiro Raquel Menopausa, que promete sinalizar quando não tem informação suficiente para responder a uma pergunta, em vez de arriscar uma resposta imprecisa — uma escolha de design que reflete uma preocupação crescente do setor com desinformação em saúde gerada por IA.
Esse avanço digital, porém, não vem sem riscos, e aqui a cautela editorial é obrigatória. Dados de saúde — incluindo dados menstruais, reprodutivos e de fertilidade — estão entre as categorias mais sensíveis sob a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), justamente por seu potencial de uso discriminatório (em processos seletivos, por seguradoras, ou mesmo em contextos de criminalização do aborto). Especialistas em privacidade digital têm alertado, em diferentes fóruns, para o risco de aplicativos de monitoramento de ciclo menstrual armazenarem e eventualmente compartilharem dados sensíveis com terceiros — um debate que ganhou força internacional após mudanças legais sobre aborto em outros países, e que no Brasil ainda carece de fiscalização mais robusta por parte da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) especificamente voltada a esse tipo de aplicativo.
Quanto vale a saúde da mulher no Brasil? A resposta honesta é: não sabemos ao certo
Uma reportagem rigorosa precisa admitir aquilo que os dados não permitem afirmar. Não existe, até o momento desta investigação, uma métrica oficial e consolidada — do IBGE, do Ministério da Saúde ou de qualquer instituição de pesquisa — que meça o tamanho total do "mercado de saúde da mulher" no Brasil. O que existe são fragmentos consistentes, mas não somáveis sem ressalvas metodológicas, de diferentes segmentos:
O mercado de medicamentos GLP-1 (usado tanto por mulheres quanto por homens, mas com adesão desproporcionalmente feminina segundo relatos do setor) movimentou entre R$ 10 bilhões e R$ 13,3 bilhões no país entre 2025 e 2026, segundo UBS e Canal Farmacêutico;
A reprodução assistida movimenta, apenas em ciclos privados de FIV, algo entre R$ 15 mil e R$ 100 mil por ciclo multiplicado por dezenas de milhares de procedimentos anuais, segundo Anvisa e UNFPA — sem que exista uma consolidação oficial do faturamento total do setor;
As femtechs brasileiras, segmento ainda incipiente, somaram US$ 14,3 milhões em investimentos desde 2017, segundo a Distrito;
A telemedicina brasileira como um todo (não exclusiva a mulheres) foi avaliada em US$ 1,52 bilhão em 2022, com projeção de alcançar entre US$ 6,19 bilhões e US$ 8,18 bilhões até 2030, segundo diferentes relatórios setoriais
Somar esses números produziria uma cifra sem sentido analítico, porque eles se sobrepõem parcialmente (uma consulta de telemedicina para uma paciente em tratamento de fertilidade, por exemplo, pode estar contabilizada em mais de uma categoria), usam metodologias distintas, e cobrem períodos diferentes. A honestidade metodológica aqui é mais valiosa do que uma cifra "redonda" e vistosa: o correto é reconhecer que a saúde da mulher no Brasil é, hoje, uma colcha de mercados fragmentados — cardiologia, oncologia, saúde mental, reprodução, obesidade, produtos menstruais, telemedicina — que estão apenas começando a ser tratados, por investidores e por gestores hospitalares, como um território estratégico único, e não como departamentos isolados.
É essa fragmentação, aliás, que explica por que o setor segue subfinanciado em relação ao seu tamanho populacional: mulheres são 51,1% da população brasileira, segundo o Censo do IBGE, mas os investimentos específicos em sua saúde — como evidenciam os números de femtech acima — permanecem uma fração marginal do total investido em saúde no país.
Não existe uma única mulher brasileira: o Brasil das desigualdades sobrepostas
Se há um fio condutor que atravessa todos os capítulos anteriores desta reportagem, é este: a mesma necessidade de saúde produz experiências radicalmente diferentes a depender de onde a mulher brasileira mora, de sua renda, de sua cor de pele e de seu nível de escolaridade.
O exemplo mais recente e mais bem documentado é o do pré-natal: o estudo de 2026 do ICEH/UFPel em parceria com a Umane mostrou que, enquanto 84,3% das mulheres brancas completam as sete consultas mínimas recomendadas, apenas 51,5% das mulheres indígenas alcançam o mesmo patamar — uma queda de 46,2 pontos percentuais entre a primeira e a sétima consulta entre indígenas, contra 15,3 pontos entre brancas, ou seja, uma perda de acompanhamento três vezes maior. Na interseção entre raça e escolaridade, o abismo se aprofunda ainda mais: apenas 19% das mulheres indígenas sem escolaridade completam o ciclo de sete consultas, contra 88,7% das mulheres brancas com 12 anos ou mais de estudo.
Padrão semelhante aparece na mortalidade materna: estudos sobre o período pandêmico mostraram razões de mortalidade materna extremamente elevadas em estados do Norte — Roraima chegou a 275,5 mortes por 100 mil nascidos vivos em 2021, e Tocantins, a 185,6, segundo dados do Ministério da Saúde compilados pelo IEPS —, patamares mais de dez vezes superiores aos observados em países desenvolvidos. Outro estudo, publicado em periódico científico brasileiro em 2023, mostrou que mulheres com 40 anos ou mais, mulheres com menos de oito anos de estudo, viúvas, mulheres pretas e indígenas apresentaram as maiores razões de mortalidade materna do país — com destaque para a taxa entre viúvas, de 741 mortes por 100 mil nascidos vivos, um número que, embora baseado em subgrupo pequeno e sujeito a maior variabilidade estatística, ilustra a intersecção entre vulnerabilidade social e risco obstétrico.
No câncer, a lógica se repete: as maiores taxas de incidência e mortalidade por câncer do colo do útero — doença amplamente evitável por vacinação e rastreamento — concentram-se nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, segundo o INCA, exatamente as regiões com menor cobertura vacinal contra HPV e menor densidade de serviços de saúde especializados. Na reprodução assistida, a desigualdade é ainda mais explícita: 77% das clínicas do país — públicas e privadas — estão no Sudeste e Sul, segundo a UNFPA, deixando o restante do território nacional dependente de deslocamentos caros e, muitas vezes, inviáveis para famílias de baixa renda.
Mesmo dentro do mesmo espaço urbano, a desigualdade entre rede pública e privada se manifesta com clareza: na endometriose, por exemplo, uma pesquisa da Ipsos, divulgada pela CNN Brasil em 2026, mostrou que enquanto 55% das pacientes atendidas na rede privada receberam indicação de cirurgia por videolaparoscopia (procedimento mais complexo e eficaz para casos avançados), apenas 20% das pacientes do SUS tiveram acesso ao mesmo procedimento — e o DIU hormonal, uma das opções terapêuticas mais eficazes para controle dos sintomas, foi indicado a apenas 15% das mulheres no geral, com acesso concentrado entre as de maior renda.
O quadro geral, portanto, não é o de "a mulher brasileira" enfrentando um conjunto único de desafios de saúde, mas o de múltiplas jornadas paralelas e desiguais — moldadas por geografia, raça e classe — que convergem, ocasionalmente, nas mesmas estatísticas nacionais agregadas, mas divergem radicalmente quando os dados são desagregados.
O SUS: a espinha dorsal que segura — e também falha
Qualquer análise séria sobre saúde da mulher no Brasil precisa reconhecer o papel estrutural do Sistema Único de Saúde — tanto em seus avanços quanto em seus gargalos, sem cair em leituras ideológicas de qualquer lado.
Do lado dos avanços: o SUS é responsável por cobrir a vasta maioria das consultas de pré-natal do país — 69,33% das gestantes que fizeram acompanhamento relataram que todas as consultas foram feitas via SUS, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE. O programa nacional de vacinação contra o HPV, integralmente público e gratuito para meninas de 9 a 14 anos desde 2014, é uma política pública de prevenção ao câncer com poucos paralelos em outras áreas da medicina. O rastreamento de câncer de mama e colo do útero via SUS, mesmo com cobertura aquém do ideal, ainda representa a principal — e para a maioria das brasileiras, a única — porta de acesso a esses exames. E o atendimento ambulatorial oncológico no SUS cresceu 54% entre 2012 e 2022, segundo dados do Observatório de Oncologia, sinal de expansão real de capacidade, mesmo em meio a restrições orçamentárias.
Do lado dos gargalos: o próprio Ministério da Saúde reconhece, em publicações recentes do INCA, "desigualdades regionais e gargalos na linha de cuidado" no câncer de mama; a cobertura mamográfica de 58,3% (2019) e a completude de apenas 78,1% do ciclo de pré-natal recomendado (2023) mostram que cobertura inicial não significa cuidado adequado do início ao fim; e a reprodução assistida pelo SUS, apesar de prevista em lei, opera com apenas 11 clínicas públicas em todo o país, segundo a UNFPA — uma oferta manifestamente incompatível com uma população de mais de 100 milhões de mulheres.
Um ponto de atenção adicional, levantado por profissionais de enfermagem obstétrica ouvidos pelo Conselho Federal de Enfermagem em 2023, é a fragilidade da atenção primária como porta de entrada para identificação precoce de gestações de risco — um fator apontado como central na disparada da mortalidade materna durante a pandemia, quando a interrupção de rotinas de atenção primária, somada ao atraso vacinal e à demora em reconhecer gestantes como grupo prioritário de vacinação contra covid-19, teria contribuído para o pior resultado da série histórica em 25 anos.
O retrato que emerge não é o de um sistema fracassado, nem o de um sistema plenamente bem-sucedido, mas o de uma rede pública que, historicamente subfinanciada frente à dimensão do país, consegue sustentar coberturas nacionais amplas em indicadores de entrada (primeira consulta de pré-natal, vacinação básica), mas perde capacidade de sustentar essa cobertura ao longo da jornada completa de cuidado — exatamente onde vivem os piores desfechos.
Quem está construindo os novos modelos de cuidado
Ao lado do SUS e da medicina tradicional privada, um conjunto ainda pequeno, mas crescente, de empresas tem tentado desenhar modelos de cuidado específicos para a jornada feminina — combinando tecnologia, multidisciplinaridade e, em alguns casos, foco em fases da vida historicamente negligenciadas.
A Theia, fundada em 2019 por Paula Crespi e Flavia Deutsch (também referida em fontes como Flavia Gotfryd) após as próprias gestações das fundadoras, oferece atendimento clínico integrado em pré-natal, parto e pós-parto, reunindo uma rede de dezenas de especialistas entre ginecologistas, psicólogos, nutricionistas e pediatras — modelo que já recebeu aportes de gestoras como a Kaszek (fundada pelos cofundadores do Mercado Livre) e a Maya Capital. A Oya Care, lançada em 2020, criou um modelo de clínica digital de fertilidade que combina coleta domiciliar de exames de sangue com teleconsulta médica — reduzindo o número de deslocamentos físicos que tradicionalmente esse tipo de investigação exige. Já no segmento de climatério, a Plenapausa (fundada em 2021) e a mais recente Raquel Menopausa (lançada oficialmente em 2025) apostam em conteúdo, comunidade e produtos de autocuidado voltados especificamente a mulheres em transição menopausal — a Plenapausa, inclusive, já soma milhares de participantes em encontros e rodas de conversa presenciais e digitais sobre o tema, segundo dados divulgados pela própria empresa.
Os modelos de negócio dessas empresas variam: assinatura de conteúdo e acompanhamento (mais comum em apps de menopausa e ciclo menstrual), consulta avulsa via marketplace de telemedicina, programas corporativos de benefício de saúde oferecidos a empresas-clientes, e clínicas híbridas que combinam atendimento presencial de alta especialização com acompanhamento digital contínuo entre consultas. Em praticamente todos os casos, o desafio relatado por fundadoras do setor — como Marina, citada em reportagem da Fast Company Brasil sobre startups de menopausa — é o mesmo: convencer investidores, historicamente mais familiarizados com temas de saúde masculina (a mesma reportagem cita que existem sete vezes mais estudos científicos sobre disfunção erétil do que sobre qualquer condição do universo feminino, como TPM ou menopausa) de que o tamanho da demanda insatisfeita compensa o investimento inicial em educação de mercado.
Por que agora? A conta que os investidores estão fazendo
A pergunta que fica, depois de mapear esse universo fragmentado de dados, é: por que, justamente agora, empresas e investidores estão prestando atenção à saúde da mulher como categoria própria — e não apenas como um apêndice da saúde geral?
A resposta combina pelo menos cinco vetores estruturais, todos documentados nesta reportagem. Primeiro, a demografia: o Brasil está envelhecendo, e envelhecendo de forma predominantemente feminina, com a população de 50 anos ou mais já representando 27% dos brasileiros em 2024 — cerca de 59 milhões de pessoas —, projeção que a ONU estima subir para 40% até 2044, segundo dados citados por análises de mercado do setor de bens de consumo. Segundo, a renda e a digitalização: o avanço da telemedicina (crescimento de mais de 50% ao ano desde 2023) e a expansão do acesso a smartphones tornaram viável, pela primeira vez em escala, levar cuidado especializado a mulheres fora dos grandes centros urbanos. Terceiro, a mudança de comportamento das consumidoras: o sucesso comercial de marcas voltadas ao climatério — como a linha Issviva, lançada pela multinacional Essity especificamente para o mercado brasileiro de menopausa — é descrito pela própria empresa como resposta ao aumento nas buscas online sobre o tema, combinado à escassez histórica de soluções específicas. Quarto, a maior conscientização médica: as diretrizes conjuntas da Febrasgo e da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre saúde cardiovascular no climatério, publicadas em 2024, são um exemplo de como sociedades médicas estão formalizando, pela primeira vez, protocolos específicos para fases da vida feminina antes tratadas de forma genérica. Quinto, e talvez mais decisivo do ponto de vista de mercado: o reconhecimento, por parte de consultorias como a McKinsey, de que a saúde da mulher ainda responde por apenas 3% de todo o financiamento global em saúde digital — um descompasso que, na lógica de investidores, representa menos um risco do que uma oportunidade de mercado ainda pouco explorada.
A questão central levantada por essa transformação — se décadas de necessidades femininas tratadas como nicho estão, de fato, virando um mercado maduro, ou se seguirão como um conjunto de nichos crescentes, porém ainda fragmentados — não tem resposta fechada. O que os dados desta reportagem permitem afirmar é que a trajetória, até aqui, aponta para consolidação gradual: cada vez mais sociedades médicas publicam diretrizes específicas por fase de vida, cada vez mais startups surgem fora do eixo tradicional de reprodução e gestação, e cada vez mais grandes empresas de consumo (como a Essity) e farmacêuticas globais lançam linhas de produto dedicadas.
Inteligência artificial: promessa real, mas ainda em construção
A inteligência artificial já não é hipótese distante na saúde da mulher brasileira — mas também está longe de ser a revolução plenamente realizada que parte do marketing do setor sugere. É importante, aqui, separar o que já existe do que está em desenvolvimento e do que ainda é apenas projeção.
Já existe e está em uso: assistentes digitais baseados em IA para monitoramento de sintomas — como o próprio aplicativo Raquel Menopausa, que usa inteligência artificial para responder dúvidas sobre climatério com base em conteúdo com respaldo científico, sinalizando explicitamente quando não possui informação suficiente para responder com segurança, em vez de arriscar uma resposta imprecisa; e dispositivos de monitoramento hormonal, como o "Hormômetro", da startup americana Eli Health, eleito Melhor Inovação em Saúde Digital no CES 2025, o maior evento de tecnologia de consumo do mundo, o que sinaliza reconhecimento internacional crescente para tecnologias de rastreamento hormonal não invasivo.
Em desenvolvimento e expansão: o uso de IA para apoio à decisão clínica em radiologia (mamografia, por exemplo) e para triagem inicial de sintomas em plataformas de telemedicina, áreas em que o Conselho Federal de Medicina já publicou diretrizes específicas de governança — a Resolução CFM nº 2.314/2022 trata da telemedicina, mas o CFM também tem avançado em normativas específicas sobre uso responsável de inteligência artificial na prática médica.
Ainda como projeção, e não realidade consolidada: promessas de "medicina personalizada" baseada em dados hormonais contínuos, capaz de prever antecipadamente riscos de doenças crônicas específicas de cada mulher ao longo da vida — tecnologia que já existe em estágio de pesquisa em centros internacionais, mas cuja aplicação em escala populacional no Brasil, integrada ao SUS ou à saúde suplementar, ainda não tem cronograma definido.
Os riscos dessa transição, por sua vez, são bem descritos na literatura internacional sobre ética em IA e saúde, mesmo quando a quantificação exata para o contexto brasileiro específico ainda seja incipiente. O primeiro é o viés algorítmico: como boa parte dos dados históricos usados para treinar modelos de IA em saúde vem de populações e ensaios clínicos historicamente dominados por homens — uma sub-representação de décadas, amplamente documentada pela literatura médica internacional —, existe risco real de que sistemas de apoio à decisão clínica repliquem, ou até amplifiquem, os mesmos vieses de subdiagnóstico que já afetam mulheres na medicina tradicional, especialmente em relação a sintomas atípicos, como os de infarto. O segundo é a privacidade: dados hormonais, menstruais e reprodutivos estão entre os mais sensíveis sob a LGPD, e sua coleta em escala por aplicativos privados levanta questões regulatórias que a Autoridade Nacional de Proteção de Dados ainda está construindo em relação especificamente a esse tipo de dado. O terceiro é a responsabilidade profissional: nenhuma diretriz brasileira hoje autoriza que um sistema de IA substitua, sozinho, o diagnóstico médico — o papel dessas ferramentas, na regulamentação atual, é de apoio, não de substituição, e a linha entre os dois seguirá sendo tema de debate regulatório nos próximos anos.
Do tratamento pontual ao cuidado contínuo
O fio que amarra praticamente todos os movimentos descritos nesta reportagem — femtechs, telemedicina, diretrizes médicas por fase de vida, canetas emagrecedoras associadas a programas de acompanhamento — é uma mudança de paradigma ainda em curso: a passagem de um modelo de saúde baseado em consultas pontuais e reativas para um modelo de acompanhamento contínuo, apoiado por dados e por equipes multidisciplinares, que atravessa toda a vida da paciente.
Na teoria desse novo modelo, a jornada de uma mulher deixaria de ser uma sequência de consultas isoladas e desconectadas — o ginecologista da adolescência, o obstetra da gravidez, o cardiologista dos 50 anos, tratados como profissionais que nunca trocam informação entre si — para se tornar um fluxo contínuo: prevenção na adolescência (educação menstrual, vacinação contra HPV), contracepção e planejamento familiar na vida adulta, suporte à fertilidade quando necessário, acompanhamento pré-natal e pós-parto integrado (incluindo saúde mental perinatal), monitoramento metabólico e cardiovascular a partir da meia-idade, suporte específico ao climatério, e cuidado geriátrico focado em prevenção de fragilidade e fraturas no envelhecimento — tudo, idealmente, com dados de saúde compartilhados entre especialidades, algo que hoje, tanto no SUS quanto na maior parte da saúde suplementar brasileira, ainda não acontece de forma sistemática.
Esse modelo integrado já existe, hoje, apenas de forma parcial e fragmentada — em clínicas privadas de nicho, em alguns programas corporativos de saúde, e em iniciativas isoladas de telemedicina. A pergunta que fica em aberto, e que nenhuma fonte consultada nesta investigação conseguiu responder com certeza, é se o sistema de saúde brasileiro — público e privado, dado o tamanho continental do país e suas desigualdades estruturais — será capaz de escalar esse modelo de cuidado contínuo para além dos bolsões de alta renda e alta digitalização onde ele hoje floresce.
A saúde da mulher nos próximos 10 anos
Reunindo os fios levantados ao longo desta investigação, é possível esboçar, com a devida cautela entre fato e projeção, um retrato do que a próxima década deve trazer para a saúde da mulher no Brasil.
Inteligência artificial e femtechs devem continuar avançando na direção de ferramentas de monitoramento hormonal contínuo e apoio à decisão clínica — mas o ritmo dessa evolução dependerá diretamente de dois fatores hoje incertos: a capacidade de atrair capital de risco em volume comparável ao de outros setores de saúde digital (hoje, segundo o McKinsey Health Institute, apenas 3% do financiamento global em saúde digital) e o amadurecimento da regulação de dados sensíveis de saúde reprodutiva pela ANPD.
Telemedicina deve seguir sendo a via de acesso mais rápida a especialistas para mulheres fora dos grandes centros, mas o desafio de conectividade — os mais de 160 milhões de brasileiros ainda sem acesso regular a saúde digital, segundo estimativas do setor, e os 5,9 milhões de lares sem internet, segundo a PNAD 2023 — deve seguir sendo o principal fator limitante para que essa promessa se converta, de fato, em redução de desigualdade regional, e não em sua reprodução digital.
Medicina personalizada e diagnóstico precoce têm o potencial mais concreto de impacto em câncer (sobretudo de ovário, hoje sem rastreamento populacional eficaz) e em doenças cardiovasculares femininas — mas dependem de investimento público sustentado em pesquisa e em ampliação da cobertura de exames, algo ainda distante das metas do próprio Ministério da Saúde, como mostram os números de cobertura mamográfica (58,3% em 2019) e de vacinação contra HPV (76% entre meninas, ainda abaixo da meta de 90% da OMS).
Longevidade e menopausa despontam como as fronteiras de crescimento mais claras dentro do universo femtech nos próximos anos, segundo consultorias como a Femhealth Insights — reflexo direto do envelhecimento populacional (27% dos brasileiros já têm 50 anos ou mais, projeção de 40% até 2044, segundo a ONU) combinado ao reconhecimento médico crescente, formalizado nas diretrizes conjuntas da Febrasgo e da SBC de 2024, de que o climatério é uma janela crítica — e não apenas incômoda — de intervenção em saúde óssea e cardiovascular.
Saúde mental deve seguir como a especialidade de maior crescimento dentro da telemedicina brasileira, dado que já responde por 15,9% de todas as consultas remotas segundo a BoaConsulta, em um país onde mulheres respondem por sete em cada dez diagnósticos de ansiedade e depressão, segundo a Think Olga.
Novos medicamentos, sobretudo a nova geração de agonistas de GLP-1, devem continuar redesenhando o mercado de obesidade e saúde metabólica — com o vencimento da patente da semaglutida em 2026 abrindo espaço para versões mais acessíveis e ampliando a penetração desses tratamentos além do 1,1% dos adultos com sobrepeso hoje estimado pelo UBS —, mas o desafio regulatório e de saúde pública será garantir que esse acesso ampliado venha acompanhado de acompanhamento médico multidisciplinar, e não de automedicação em massa, um risco que já levou a Anvisa a endurecer as regras de venda desses produtos.
Reprodução assistida e programas de acompanhamento contínuo, por fim, devem seguir crescendo em volume — o número de ciclos de FIV já vem subindo de forma consistente há anos, segundo o SisEmbrio da Anvisa —, mas seguirão sendo, na ausência de investimento público robusto (hoje limitado a 11 clínicas do SUS em todo o país), um privilégio concentrado nas regiões Sul e Sudeste e nas famílias com capacidade de arcar com valores de até R$ 100 mil por ciclo, segundo a UNFPA.
O quadro geral que emerge desta investigação é o de um setor em transição real, mas incompleta: a saúde da mulher brasileira está, de fato, deixando de ser tratada como um apêndice da ginecologia e da obstetrícia para se tornar um ecossistema mais amplo de prevenção, diagnóstico, tratamento e tecnologia — impulsionado tanto pelo reconhecimento tardio do tamanho dessa demanda quanto pelo apetite crescente de investidores por um mercado ainda pouco explorado. Mas essa transição convive, lado a lado, com desigualdades estruturais antigas — regionais, raciais, de renda — que nenhuma quantidade de inovação tecnológica resolverá sozinha, sem investimento público sustentado e sem que o próprio sistema de saúde, público e privado, passe a tratar a jornada feminina como o que ela sempre foi: não um nicho, mas metade do país.
Nota sobre fontes e metodologia
Esta reportagem foi construída a partir de dados públicos do IBGE, Ministério da Saúde, DATASUS, INCA, Anvisa (incluindo o Sistema Nacional de Produção de Embriões – SisEmbrio), ANS, Fiocruz, Conselho Federal de Medicina, Conselho Federal de Enfermagem, além de sociedades médicas como Febrasgo e Sociedade Brasileira de Cardiologia, organismos internacionais (OMS, OPAS, UNFPA/ONU) e estudos científicos publicados em periódicos como Climacteric, Revista Brasileira de Cancerologia (INCA) e Cadernos de Saúde Pública. Dados de mercado citam suas fontes originais (consultorias como McKinsey Health Institute, Frost & Sullivan, Grand View Research, Arizton Advisory, Pitchbook, Femtech Analytics, UBS e Distrito) com o ano de referência sempre que disponível, e divergências metodológicas entre fontes foram explicitadas, e não harmonizadas artificialmente. Onde os dados eram insuficientes, contraditórios ou baseados em metodologias não transparentes, esta reportagem optou por não apresentar uma cifra única — preferindo a honestidade sobre a incerteza a uma falsa precisão.
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