O mercado dos exames sem plano: por que a SPASS aposta no Rio de Janeiro

Com o Rio Exames, a SiiM Saúde Tecnologia entra em um dos maiores e mais desiguais mercados de saúde do país — apostando que a distância entre demanda por diagnóstico e cobertura de planos de saúde é, também, uma oportunidade de negócio

Marcelo Carvaho - Jornalista Saúde Conciege

8/12/202616 min read

funcionaria rio exames spass beneficios
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Todos os anos, o Brasil realiza mais de 1 bilhão de exames diagnósticos, somando sistema público e saúde suplementar — volume que cresceu 15,7% entre 2022 e 2023, segundo o Painel Abramed 2024, da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica. É um mercado gigantesco, mas com um detalhe estrutural pouco discutido: uma parcela relevante da população que precisa desses exames não tem plano de saúde para pagá-los. Segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017-2018 do IBGE, 64,4% dos brasileiros — cerca de 133,3 milhões de pessoas à época — não possuíam nenhum tipo de plano de saúde privado. É nesse espaço, entre a demanda por diagnóstico e a ausência de cobertura, que a SiiM Saúde Tecnologia, controladora da plataforma SPASS Benefícios, decidiu lançar um novo produto batizado Rio Exames, voltado especificamente ao mercado fluminense.

A iniciativa chega em um momento em que o setor de diagnóstico médico brasileiro vive um dos ciclos de expansão mais expressivos dos últimos anos — puxado pelo envelhecimento populacional, pelo aumento de doenças crônicas e pela digitalização de processos que antes dependiam inteiramente de balcões físicos. Ao mesmo tempo, o acesso à saúde suplementar segue concentrado: em outubro de 2025, o setor de planos de assistência médica somava 53,3 milhões de beneficiários em todo o país, segundo dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) — um contingente expressivo, mas que ainda representa uma minoria dos mais de 213 milhões de habitantes do país, conforme a Estimativa de População 2025 do IBGE.

É nesse contexto — de mercado de diagnóstico em expansão e de cobertura de saúde suplementar historicamente limitada — que a proposta do Rio Exames deve ser lida: não como um lançamento isolado, mas como um movimento dentro de uma tendência mais ampla de plataformas digitais que tentam intermediar o acesso a serviços de saúde para quem paga diretamente do próprio bolso.

O nascimento do Rio Exames

O Rio Exames é descrito pela SiiM Saúde Tecnologia como uma plataforma digital voltada à conexão entre consumidores e uma rede de estabelecimentos parceiros no estado do Rio de Janeiro, oferecendo exames médicos e de diagnóstico com preços e condições comerciais diferenciadas. O projeto nasce dentro da estrutura da SPASS Benefícios, marca sob a qual a SiiM Saúde reposicionou sua atuação nos últimos anos, ampliando o escopo de um serviço inicialmente concentrado em telemedicina e consultas para um clube de benefícios mais amplo, com descontos em saúde, educação, lazer e bem-estar.

A companhia já opera, em nível nacional, a SPASS Exames — um serviço que se apresenta como um marketplace de exames médicos, conectando usuários a mais de mil clínicas parceiras em dezenas de cidades brasileiras, da Grande São Paulo a capitais como Salvador, Fortaleza e Manaus, segundo informações públicas do site da empresa. O Rio Exames, portanto, não surge como um produto isolado, mas como uma frente de atuação dedicada especificamente ao mercado do Rio de Janeiro, dentro de uma estratégia mais ampla de capilarização geográfica que a SPASS já vinha executando em outros estados.

É importante registrar, com o rigor que o tema exige: não foram encontradas, até o momento, informações públicas detalhadas sobre volume de investimento, número de parceiros contratados especificamente para o Rio Exames, metas de usuários ou cronograma de lançamento da marca. A análise a seguir, portanto, parte do que a empresa formalmente descreve como proposta — uma plataforma de acesso a exames com condições diferenciadas — e do contexto de mercado em que essa proposta se insere, sem especular sobre números que a companhia não divulgou.

Um ponto contratual central, reiterado nos canais institucionais da SPASS, merece destaque editorial: a empresa não se apresenta como operadora de plano de saúde. O modelo declarado é o de intermediação comercial — a plataforma conecta o consumidor a um prestador parceiro, mas o pagamento pelo exame ou pela consulta é feito diretamente pelo paciente ao estabelecimento, e não por meio de mensalidade ou reembolso, como ocorre na saúde suplementar regulada pela ANS.

O mercado por trás dos exames

Para entender por que uma plataforma como o Rio Exames encontra espaço, é preciso olhar para os números do setor de medicina diagnóstica brasileiro.

Segundo o Painel Abramed 2025, o país ultrapassou a marca de 1 bilhão de exames realizados em 2024 apenas entre as associadas da entidade — crescimento de 15,7% em relação a 2023 e equivalente a 86,8% de todo o volume da saúde suplementar brasileira. Dentro desse total, os exames de diagnóstico por imagem somaram 24,4 milhões de procedimentos em 2024, um salto de 43,4% frente aos 17 milhões registrados no ano anterior — a segunda maior categoria em volume, atrás apenas das análises clínicas, que lideram o ranking nacional de procedimentos.

Em termos de infraestrutura, o parque de equipamentos de diagnóstico por imagem do país cresceu de 247,8 mil para 293,3 mil unidades entre 2023 e 2024, uma expansão de 9,9%, segundo o mesmo levantamento da Abramed. O setor de imagem médica movimentou aproximadamente US$ 958 milhões em 2024, com projeção de crescimento de cerca de 33% até 2030, segundo a consultoria Grand View Research. Já o segmento de equipamentos de diagnóstico por imagem foi avaliado em cerca de R$ 3,1 bilhões em 2025, de acordo com a consultoria internacional IMARC Group, citada pela revista Exame.

O mercado de análises clínicas, por sua vez, movimentou mais de R$ 15 bilhões em 2020, conforme dados da Abramed compilados pela LabVital — e a tendência apontada por especialistas do setor é de continuidade do crescimento, muito em razão do envelhecimento populacional e da maior demanda por diagnóstico precoce. A escala de laboratórios individuais também ilustra o tamanho do setor: o grupo DB Diagnósticos, um dos maiores laboratórios de apoio do país, projetava faturamento de R$ 1,8 bilhão em 2025, alta de 19% sobre o ano anterior, segundo comunicado da própria companhia.

Somando sistema público e suplementar, o total de exames realizados no Brasil em 2023 chegou a 2,4 bilhões, um crescimento de 11% em relação a 2022, segundo o Painel Abramed 2024. A medicina diagnóstica também passou a responder por 11,1% das vagas de emprego do setor de saúde, somando mais de 307 mil trabalhadores em 2024 — um saldo de 9,1 mil novos postos naquele ano, quatro vezes superior ao registrado em 2023.

O quadro geral é o de um setor em expansão consistente, tanto em volume de procedimentos quanto em capacidade instalada — mas, como o próprio Painel Abramed reconhece, com desigualdade relevante na distribuição regional dos serviços, concentrados nas regiões Sudeste e Sul do país.

O consumidor que está fora dos planos de saúde

Se o mercado de diagnóstico cresce, o acesso da população a ele por meio de plano de saúde segue distante de ser universal. Em outubro de 2025, a ANS registrava 53,3 milhões de beneficiários em planos de assistência médica e 35,1 milhões em planos exclusivamente odontológicos no país. É um número em trajetória de crescimento — o setor médico-hospitalar somou mais de 1,2 milhão de novos vínculos entre julho de 2024 e julho de 2025 —, mas que ainda deixa a maior parte da população brasileira fora da cobertura privada regulada.

Segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE referente a 2017-2018, 64,4% da população brasileira — a época, cerca de 133,3 milhões de pessoas — não tinha nenhum tipo de plano de saúde privado. Essa população não deixa de precisar de exames, consultas e diagnósticos: ela apenas os busca por outras vias, como o Sistema Único de Saúde, o pagamento particular direto, clínicas populares ou, mais recentemente, plataformas digitais de intermediação e desconto.

O peso desse pagamento direto no orçamento das famílias é documentado por diferentes fontes. Segundo a Conta-Satélite de Saúde do IBGE, a participação das despesas com saúde no consumo final das famílias brasileiras subiu de 7,3% em 2010 para 9,2% em 2021 — e as despesas das famílias com saúde representaram 5,7% do PIB naquele ano. Em análise publicada pelo Banco Mundial em 2022, destaca-se que, embora o gasto total em saúde no Brasil seja proporcionalmente comparável ao de países europeus, uma fatia menor desse gasto é financiada pelo setor público — pouco menos de 41%, ante mais de 60% em países como Argentina e Uruguai —, o que faz do desembolso direto das famílias brasileiras um componente estruturalmente mais relevante do financiamento da saúde do país do que em nações com sistemas públicos mais robustos.

É esse consumidor — sem plano de saúde, mas com necessidade recorrente de exames e consultas, e pagando por eles diretamente — que se tornou o público-alvo de um conjunto crescente de modelos de negócio no Brasil: clínicas populares, redes de descontos em medicamentos e exames, marketplaces de agendamento e clubes de benefícios como o operado pela SPASS. O Rio Exames se insere justamente nessa categoria, propondo-se a atuar como intermediário comercial entre esse consumidor e a rede de prestadores de diagnóstico do Rio de Janeiro.

Um novo modelo de distribuição

Do ponto de vista de modelo de negócio, plataformas como o Rio Exames operam uma lógica distinta tanto da dos planos de saúde quanto da dos laboratórios tradicionais: elas não prestam o serviço médico, nem assumem o risco assistencial de uma operadora regulada pela ANS. Atuam como camada de distribuição digital — conectando demanda dispersa (consumidores individuais buscando exames pontuais) à oferta fragmentada de uma rede de clínicas e laboratórios parceiros, negociando condições comerciais diferenciadas em troca de volume e recorrência.

Esse desenho se assemelha, em estrutura, ao de marketplaces de outros setores: a plataforma investe em aquisição digital de clientes, oferece um catálogo comparável de serviços, e monetiza por meio de comissionamento sobre a transação, mensalidade de acesso ao clube de benefícios, ou uma combinação dos dois — sem que a empresa em questão tenha, até o momento, divulgado publicamente qual estrutura de receita exatamente sustenta o Rio Exames. O que se sabe, pelo posicionamento institucional da SPASS, é que o pagamento pelo exame continua sendo feito pelo paciente diretamente ao prestador, o que reforça a natureza de intermediação — e não de seguro ou plano — do modelo.

A experiência do usuário é o ponto central de diferenciação buscado por esse tipo de plataforma: comparação de preços, agendamento digital, ausência de carência (já que não há vínculo de plano de saúde a ser cumprido) e, em tese, maior transparência sobre valores — em contraste com a opacidade histórica de preços no setor de saúde privado brasileiro, no qual o mesmo procedimento pode variar significativamente de preço entre estabelecimentos vizinhos.

Rio de Janeiro como mercado estratégico

A escolha do Rio de Janeiro como praça para o novo produto não é aleatória do ponto de vista demográfico e econômico. Segundo a Estimativa de População 2025 do IBGE, divulgada em agosto daquele ano, o estado do Rio de Janeiro somava 17.223.547 habitantes na data de referência de 1º de julho de 2025 — o equivalente a 8,1% da população brasileira, que totalizava 213.421.037 pessoas. A Região Metropolitana do Rio é a segunda maior do país, com 12.937.950 moradores.

O adensamento populacional do estado é outro fator relevante para um modelo de negócio que depende de escala e concentração urbana para funcionar: 63,3% dos habitantes do Rio de Janeiro vivem em apenas sete municípios, segundo o IBGE — a capital, sozinha, concentra cerca de 6,73 milhões de pessoas, quase 40% da população estadual. Ampliando o recorte para os 29 municípios com mais de 100 mil habitantes, o total chega a 15,3 milhões de pessoas — ou seja, a esmagadora maioria da população fluminense está concentrada em áreas urbanas de médio a grande porte, o tipo de território mais propício à formação de redes densas de prestadores parceiros e à aquisição digital eficiente de clientes.

Do ponto de vista da saúde suplementar, o Rio de Janeiro também aparece de forma recorrente entre os estados com maior crescimento em número absoluto de beneficiários de planos de saúde ao longo de 2025, ao lado de São Paulo e Minas Gerais, segundo os boletins mensais da ANS — o que indica não apenas um mercado relevante para operadoras tradicionais, mas também um ambiente de demanda aquecida por serviços de saúde privada de forma mais ampla, incluindo a parcela da população que segue sem cobertura via plano.

A combinação desses fatores — grande população, alta concentração urbana, mercado de saúde suplementar em expansão e, ao mesmo tempo, uma parcela relevante de consumidores fora da cobertura de planos — ajuda a explicar por que o estado se torna um alvo natural para uma plataforma de acesso a exames fora do sistema de operadoras reguladas.

SPASS e a estratégia de ecossistema

Olhado de forma isolada, o Rio Exames poderia ser descrito simplesmente como a expansão regional de um produto já existente, a SPASS Exames, para um novo mercado geográfico. Mas o movimento também pode ser lido dentro de uma estratégia mais ampla da SiiM Saúde Tecnologia de construir um ecossistema de produtos ao redor do consumidor de saúde que não possui plano — combinando telemedicina, descontos em consultas especializadas, descontos em medicamentos e, agora, uma frente dedicada a exames diagnósticos por região.

Essa lógica de ecossistema é reforçada pela existência de outras frentes de negócio sob o mesmo grupo, como a SPASS Pró — voltada ao posicionamento digital de médicos parceiros — e a SPASS Afiliados, um programa de afiliação para distribuição da marca. A companhia também opera a Medy, uma iniciativa ligada a telemedicina e gestão de peso, ampliando ainda mais o escopo de atuação além do núcleo original de consultas gerais.

Não há, até o momento, dados públicos que permitam avaliar com precisão o quanto o Rio Exames representa, em si, uma nova unidade de negócio autônoma ou uma extensão natural de um produto que já operava, sob outro nome, no estado. É uma limitação que a reportagem registra explicitamente: qualquer avaliação sobre o peso estratégico do lançamento para o resultado consolidado da SiiM Saúde depende de informações que a companhia não divulgou publicamente.

Concorrência e mercado

O espaço em que o Rio Exames pretende competir não é vazio. No Brasil, coexistem hoje diferentes categorias de negócio voltadas ao consumidor de saúde sem plano ou insatisfeito com o custo de sua cobertura atual: clínicas populares, que oferecem consultas e exames a preços fixos reduzidos em unidades físicas próprias; marketplaces de agendamento, que conectam pacientes a laboratórios e clínicas parceiras sem necessariamente oferecer um clube de benefícios mais amplo; redes de descontos em medicamentos, consolidadas há mais tempo no país; e, mais recentemente, plataformas digitais de saúde que combinam telemedicina com algum nível de desconto em exames presenciais.

O que diferencia conceitualmente uma proposta como o Rio Exames desses modelos — pelo menos no discurso institucional da SPASS — é a combinação de dois elementos: a promessa de rede ampla de parceiros em vez de unidades físicas próprias, e a integração com um clube de benefícios mais abrangente, que vai além de exames e inclui consultas médicas, descontos em farmácias e outros serviços. Trata-se, na prática, de uma aposta de que a fidelização por meio de múltiplos benefícios recorrentes gera mais retenção de cliente do que uma transação pontual de exame.

Ainda assim, cabe uma ressalva jornalística: não há, disponível publicamente, uma comparação independente e auditada entre os preços praticados pela SPASS e pela concorrência, nem levantamentos setoriais consolidados sobre a participação de mercado de cada um desses modelos no Rio de Janeiro especificamente. A afirmação de que o modelo é mais vantajoso para o consumidor depende, portanto, de verificação caso a caso, e não deve ser tomada como fato genérico.

O desafio regulatório

Um dos pontos mais sensíveis de qualquer plataforma de intermediação em saúde no Brasil é a fronteira regulatória entre o que configura um plano de saúde — sujeito à regulação da ANS, com exigências de cobertura mínima, reservas técnicas e outras obrigações — e o que configura um serviço de intermediação comercial ou clube de descontos, fora desse arcabouço.

A própria SPASS reforça publicamente, em seus canais institucionais, que não se trata de um plano de saúde, e que o pagamento pelos serviços é feito diretamente pelo consumidor ao prestador. Essa distinção não é apenas semântica: modelos de mensalidade fixa vinculados a promessa de cobertura assistencial ampla têm sido historicamente escrutinados por reguladores e pelo Judiciário brasileiro, justamente para verificar se, na prática, configuram operação de plano de saúde não autorizada. Não é possível, a partir das informações públicas disponíveis, fazer uma afirmação jurídica definitiva sobre o enquadramento regulatório do Rio Exames — esse é um ponto que caberia a análise de especialistas em direito da saúde e, eventualmente, à própria ANS.

Outros pontos regulatórios relevantes para esse tipo de negócio incluem a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), já que a operação de uma plataforma de agendamento de exames envolve o tratamento de dados sensíveis de saúde; as normas de publicidade médica do Conselho Federal de Medicina, que regulam como clínicas e profissionais parceiros podem divulgar seus serviços; e as regras gerais do Código de Defesa do Consumidor, que se aplicam a qualquer relação de intermediação comercial com consumidores finais. No caso específico de serviços de telemedicina eventualmente vinculados ao mesmo ecossistema, soma-se ainda a regulamentação da prática médica remota, tema que vem sendo discutido de forma recorrente entre ANVISA, Conselho Federal de Medicina e o Congresso Nacional nos últimos anos.

Tecnologia e transformação do setor

O avanço de plataformas como o Rio Exames também precisa ser lido dentro de uma transformação tecnológica mais ampla do setor de saúde brasileiro. Agendamento digital, uso de dados para personalização de ofertas, automação de processos administrativos em clínicas e laboratórios, incorporação de inteligência artificial em diagnóstico por imagem e expansão da telemedicina são tendências já documentadas pelo próprio setor — a Abramed, por exemplo, associa parte do crescimento recente do diagnóstico por imagem a avanços tecnológicos e à maior digitalização do acesso a serviços de saúde.

Nesse cenário, uma plataforma de intermediação digital como o Rio Exames se posiciona menos como provedora de tecnologia médica em si — ela não realiza os exames — e mais como camada de distribuição e experiência do usuário sobre uma infraestrutura física de diagnóstico que já existe e segue crescendo. É um papel semelhante ao de outras plataformas de intermediação em setores como turismo ou varejo: o valor está na curadoria, na comparação e na conveniência de acesso, não na produção do serviço final.

Modelo econômico

A companhia não divulgou publicamente informações sobre faturamento, volume de investimento destinado ao Rio Exames, número de usuários ativos na SPASS como um todo, ou volume de exames intermediados até o momento. Também não há dados públicos sobre o tamanho da rede de parceiros especificamente contratada para a operação no Rio de Janeiro. Diante da ausência dessas informações, esta reportagem se abstém de estimar receita, escala de usuários ou qualquer projeção financeira para o Rio Exames — dados que, se e quando divulgados pela companhia, poderão ser objeto de cobertura futura.

Potencial de expansão

Ainda que o Rio Exames tenha sido concebido como um produto regional, a lógica de negócio de plataformas digitais de saúde costuma favorecer a replicação geográfica, uma vez validado o modelo operacional em um primeiro mercado. A própria SPASS já demonstra essa lógica de expansão por meio da SPASS Exames, presente, segundo informações do site da empresa, em dezenas de cidades espalhadas por diferentes regiões do país, da Grande São Paulo a capitais do Norte e Nordeste.

Do ponto de vista teórico, a escalabilidade de um modelo como esse depende de fatores como a capacidade de negociação com novos prestadores em cada praça, o custo de aquisição de clientes (CAC) em mercados digitais cada vez mais competitivos, a taxa de recorrência de uso da plataforma pelo consumidor, e a densidade populacional das regiões-alvo — variável que, como discutido, favorece o Rio de Janeiro em razão de sua concentração urbana. Não há, no entanto, informações públicas que indiquem se a companhia já planeja formalmente replicar a marca "Rio Exames" — ou uma nomenclatura equivalente adaptada a outros estados — em outras praças brasileiras.

Riscos

Nenhuma análise séria sobre esse tipo de modelo de negócio pode ignorar seus riscos. O primeiro é regulatório: a linha entre intermediação comercial e operação de plano de saúde não autorizado é objeto de escrutínio recorrente por parte da ANS e do Judiciário, e qualquer ambiguidade na comunicação comercial de uma plataforma pode gerar questionamentos.

O segundo risco é de qualidade e consistência da rede de parceiros: como a plataforma não presta o serviço médico diretamente, sua reputação depende inteiramente do desempenho de terceiros — clínicas e laboratórios parceiros —, sobre os quais o controle direto é necessariamente mais limitado do que em um modelo verticalizado.

O terceiro risco é competitivo: o espaço de clubes de descontos e marketplaces de saúde no Brasil já conta com diversos participantes, e a barreira de entrada tecnológica para replicar esse tipo de plataforma é relativamente baixa, o que tende a pressionar margens e elevar o custo de aquisição de clientes ao longo do tempo.

Há ainda riscos ligados à segurança de dados — dado o caráter sensível de informações de saúde tratadas pela plataforma —, à confiança do consumidor em um mercado historicamente marcado por casos de fraude e propaganda enganosa envolvendo descontos em saúde, e à sustentabilidade financeira do modelo caso as margens de intermediação não se mostrem suficientes para cobrir os custos de aquisição e retenção de clientes no longo prazo.

O que está em jogo

O Rio Exames pode ser descrito, de forma mais conservadora, como a expansão regional de um produto de intermediação de exames que a SPASS já operava em outras partes do país, adaptado à especificidade do mercado fluminense. Mas o contexto em que ele nasce — um Brasil onde a maior parte da população segue sem plano de saúde privado, onde o volume de exames diagnósticos cresce de forma consistente ano após ano, e onde o gasto direto das famílias com saúde representa uma fatia estruturalmente relevante do financiamento do setor — sugere que iniciativas desse tipo dificilmente devem ser lidas apenas como um produto isolado.

Se plataformas de intermediação como o Rio Exames conseguirem, de fato, construir redes de parceiros amplas, preços consistentemente mais competitivos e confiança suficiente junto ao consumidor, elas têm potencial para se tornar uma camada relevante — ainda que paralela e distinta — da forma como parte da população brasileira acessa diagnóstico médico privado, ao lado do SUS e da saúde suplementar tradicional. Se, por outro lado, esbarrarem nos desafios regulatórios, de qualidade de rede e de sustentabilidade econômica que marcam esse tipo de negócio, tendem a permanecer como mais uma entre várias iniciativas semelhantes disputando o mesmo espaço.

O que parece mais seguro afirmar, a partir dos dados disponíveis, é que a lacuna estrutural que sustenta esse tipo de modelo — a distância entre a demanda por exames e a cobertura via plano de saúde — não é um fenômeno conjuntural, mas uma característica persistente do sistema de saúde brasileiro. Enquanto essa lacuna existir, o espaço para plataformas de acesso e desconto, como o Rio Exames se propõe a ser, deve continuar atraindo players — grandes e pequenos — dispostos a testar se tecnologia e escala são suficientes para transformar intermediação comercial em um negócio de saúde sustentável.

Nota: esta reportagem foi elaborada com base em dados públicos disponíveis até agosto de 2026, com fontes primárias citadas ao longo do texto (IBGE, ANS, Abramed, Banco Mundial, consultorias setoriais e informações institucionais divulgadas pela própria SPASS/SiiM Saúde Tecnologia). Não foram utilizadas entrevistas exclusivas nem declarações não verificáveis de executivos da companhia. Onde não havia dado público disponível — como faturamento, número de usuários e volume de investimento do Rio Exames —, isso foi explicitamente registrado no texto, em vez de estimado ou presumido.

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