O Peso da Riqueza: Como o Brasil Transformou Emagrecer em Negócio Bilionário

Entre canetas injetáveis, aplicativos de acompanhamento e uma nova geração de healthtechs, o país testemunha o nascimento de um setor inteiro — e ainda está descobrindo como cobrar, entregar e sustentar esse valor no longo prazo

Equipe Saúde Concierge

8/22/202617 min read

Medicine box and injection pens for medical use
Medicine box and injection pens for medical use

Há pouco mais de três anos, emagrecer no Brasil era, majoritariamente, um problema resolvido — ou não — na academia, no consultório do nutricionista ou na dieta da vez. Hoje é também uma linha de negócio. Uma caneta injetável comprada com receita retida, um aplicativo que acompanha a rotina alimentar, uma teleconsulta agendada pelo WhatsApp, uma startup que promete cuidar do "depois" do medicamento: o emagrecimento deixou de ser apenas um capítulo da vaidade ou da saúde pública para se tornar uma economia com fornecedores, investidores, disputas regulatórias e — como toda economia relevante — vencedores e riscos.

O gatilho tem nome e sobrenome: os agonistas de GLP-1, classe de medicamentos que inclui semaglutida (Ozempic, Wegovy, Rybelsus) e tirzepatida (Mounjaro, Zepbound), originalmente desenvolvidos para o tratamento do diabetes tipo 2 e que se revelaram, também, os fármacos mais eficazes já produzidos para a perda de peso. Mas reduzir o fenômeno à farmacologia é subestimar o que está em curso. Ao redor da injeção semanal, formou-se um ecossistema de clínicas, plataformas de telemedicina, aplicativos de inteligência artificial, nutricionistas, psicólogos, programas de assinatura e startups que apostam que o verdadeiro negócio não é vender o medicamento — é acompanhar quem o usa.

Esta reportagem investiga essa transição: da caneta ao ecossistema, do produto ao serviço, do medicamento ao modelo de negócio recorrente.

A febre das "canetas para emagrecer"

Poucas categorias de produto de consumo tiveram uma curva de popularização tão abrupta quanto os medicamentos injetáveis para perda de peso. Um levantamento da Ipsos mostrou que as menções a "canetas emagrecedoras" nas redes sociais brasileiras cresceram 56% entre junho de 2024 e maio de 2025, somando 239 mil citações — com o Ozempic liderando o ranking de menções, seguido por Mounjaro, Wegovy, Saxenda, Victoza e Trulicity. O fenômeno atravessou consultórios médicos, redes sociais, grupos de WhatsApp e, principalmente, o varejo farmacêutico: hoje, os agonistas de GLP-1 já respondem por 8% a 9% da receita de grandes redes como RD Saúde (Raia e Drogasil), Pague Menos e Panvel, segundo relatório do Itaú BBA — uma fatia que os analistas do banco projetam alcançar 20% até 2030.

O deslocamento é notável porque a maior parte desses fármacos foi desenvolvida e aprovada, originalmente, para o controle glicêmico de pacientes diabéticos. A popularidade como emagrecedor é, tecnicamente, um uso "off-label" no caso de vários deles — situação que a entrada de versões com indicação específica para obesidade, como Wegovy, começou a formalizar. O mecanismo de ação explica o apelo: esses medicamentos atuam nos centros de saciedade do cérebro, retardam o esvaziamento gástrico e regulam os níveis de açúcar no sangue, produzindo redução de apetite e, consequentemente, perda de peso — em estudos clínicos internacionais, a semaglutida injetável mostrou perda média de cerca de 15% do peso corporal, enquanto a tirzepatida chegou a patamares próximos de 20% em parte dos participantes, com variação individual relevante.

O apelo comercial, no entanto, tem um custo social que a reportagem não pode ignorar: a banalização do uso. O preço elevado — o tratamento mensal pode consumir mais de 70% de um salário mínimo brasileiro, segundo estimativa da consultoria Strategy& (PwC) — associado à alta demanda criou um ambiente propício ao comércio irregular. Entre 2023 e 2024, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu sucessivos alertas sobre lotes falsificados de Ozempic circulando no país, incluindo um caso em que canetas de insulina foram reetiquetadas com rótulos fraudados do medicamento — episódio associado à hospitalização em estado grave de uma paciente no Rio de Janeiro. A agência já reconheceu ao menos três lotes falsificados distintos e, em resposta ao problema, passou a exigir a retenção da receita médica na venda de Ozempic, medida que busca conter tanto a falsificação quanto o uso sem acompanhamento médico.

A escassez global de produção — a Organização Mundial da Saúde (OMS) atribui parte do problema justamente ao descompasso entre demanda e capacidade industrial das farmacêuticas — alimentou ainda um mercado paralelo de produtos comprados em sites não regulamentados, grupos de mensagens e redes sociais, prática contra a qual a própria Anvisa tem alertado repetidamente. Em nota conjunta divulgada em 2026, três das principais entidades médicas do país dedicadas à obesidade, ao diabetes e à endocrinologia — a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso) — reforçaram publicamente que pacientes devem utilizar exclusivamente medicamentos registrados na Anvisa, resposta direta ao aumento da circulação de versões alternativas de análogos de GLP-1 e GIP no país.

É esse duplo movimento — democratização do desejo por emagrecer com apoio farmacológico, de um lado, e risco real de uso sem supervisão, de outro — que abriu espaço para a segunda camada da história: a de quem decidiu transformar o acompanhamento desse processo em produto.

O nascimento de uma nova economia

Um medicamento injetável, por mais eficaz que seja, não resolve sozinho a equação do emagrecimento sustentável. Quem usa GLP-1 ainda precisa de triagem médica adequada antes de iniciar o tratamento, ajuste de dose ao longo do tempo, orientação nutricional para preservar massa magra, suporte psicológico para lidar com a mudança de relação com a comida e, no caso de interrupção do tratamento, algum tipo de estratégia para não recuperar o peso perdido — fenômeno já observado internacionalmente e discutido por sociedades médicas. Essa cauda de necessidades é o que abriu a segunda onda de oportunidade: não vender a caneta, mas vender a jornada em torno dela.

O impacto vai além do consultório médico. Uma pesquisa do Itaú BBA com 150 mil famílias brasileiras mostrou que domicílios com usuários de GLP-1 reduziram os gastos com supermercado em 5,3% já nos primeiros seis meses de tratamento, com queda mais acentuada em produtos hipercalóricos, açucarados e gordurosos — e aumento no consumo de frutas, barras de proteína e iogurtes. Esse tipo de mudança comportamental, replicada em escala, é exatamente o tipo de dado que atrai não só a indústria alimentícia, mas também startups de nutrição, aplicativos de hábitos e programas de bem-estar corporativo, que veem no usuário de GLP-1 um consumidor em transição ativa — e, portanto, um público de alto valor para produtos e serviços adjacentes.

O setor de saúde digital brasileiro, que já vinha em expansão antes da febre das canetas, encontrou nesse movimento um novo eixo de crescimento. Segundo o HealthTech Recap 2024, elaborado pelo Distrito em parceria com a Associação Brasileira de Startups de Saúde e HealthTechs (ABSS), o Brasil concentra 64,8% de todas as healthtechs investidas na América Latina, com 602 startups ativas mapeadas e R$ 799 milhões movimentados em investimentos só naquele ano. Levantamentos mais recentes, como o da Tracxn, ampliam esse universo para algo entre 1.200 e quase 1.900 empresas de saúde digital no país, dependendo da metodologia de contagem — um mercado de saúde digital que somou US$ 6,34 bilhões em 2024 e deve alcançar US$ 21,9 bilhões até 2030, a um crescimento anual composto estimado em 23,2%.

Nem toda essa expansão está diretamente ligada à obesidade e ao emagrecimento, é importante frisar — o ecossistema de healthtechs brasileiro também cresce em prontuário eletrônico, gestão financeira de clínicas, planos de saúde digitais e telemedicina geral. Mas o segmento de emagrecimento e cuidado metabólico se consolidou como uma das frentes mais visíveis e comercialmente atrativas dentro desse universo maior, na esteira direta da explosão de demanda por GLP-1.

Novos modelos de negócio

A pergunta que orienta boa parte dos investimentos em healthtechs de emagrecimento não é "como vender o medicamento", mas "como transformar o emagrecimento em um serviço recorrente". A resposta, até agora, tem passado por três formatos que se sobrepõem: telemedicina para prescrição e acompanhamento médico contínuo; aplicativos de coaching comportamental e nutricional; e comunidades ou programas estruturados de bem-estar de longo prazo.

O modelo já está testado — e maduro — fora do Brasil. Nos Estados Unidos, plataformas como Ro, Noom Med, Found e a divisão de telessaúde da Hims & Hers disputam o mesmo consumidor com propostas de valor distintas: a Ro se posiciona pela integração vertical com farmácia própria, priorizando velocidade e previsibilidade na entrega do medicamento; a Noom Med aposta no oposto, construindo sobre décadas de pesquisa em ciência comportamental um modelo de assinatura em camadas, que combina medicamento com acompanhamento psicológico e nutricional intensivo; a Found e a Hims & Hers ocupam posições intermediárias, priorizando acesso simplificado com suporte clínico leve. O denominador comum entre todas é a cobrança recorrente — mensal ou anual — por um pacote que mistura acesso médico, medicamento e, em graus variados, acompanhamento comportamental.

No Brasil, esse modelo de assinatura de saúde ainda está em formação, mas os sinais de maturação são claros. A regulamentação da telemedicina, hoje amparada pela Lei nº 14.510/2022 e pela Resolução CFM nº 2.314/2022 — que substituiu a norma anterior e tornou permanente a prática que havia sido autorizada emergencialmente durante a pandemia —, deu segurança jurídica para que empresas construíssem modelos de atendimento médico primariamente remoto, incluindo triagem, prescrição e retorno. Isso abriu caminho para que healthtechs de nutrição, bem-estar corporativo e telessaúde adicionassem trilhas específicas de emagrecimento e acompanhamento de pacientes em uso de GLP-1 aos seus portfólios, muitas vezes como produto de maior ticket médio dentro de operações que já existiam.

Do lado do capital, o interesse permanece firme, ainda que o ciclo de investimento em healthtechs brasileiras tenha desacelerado em volume total: em 2025, o setor registrou 43 rodadas de investimento, ligeiramente acima das 41 de 2024, segundo dados da Liga Ventures — mas com queda de 28% no volume de recursos captados, reflexo de um ambiente de juros elevados e maior seletividade dos investidores. A expectativa manifestada por gestores do setor, como os da Kortex Ventures e da Green Rock, é de retomada mais forte em 2026, à medida que o ciclo de queda de juros avança e mais healthtechs de nicho — incluindo as voltadas a emagrecimento e doenças metabólicas — buscam rodadas maiores.

Outro vetor de consolidação vem de fora das startups: grandes players de varejo farmacêutico e diagnóstico, como a Raia Drogasil e o Grupo Fleury, têm adquirido healthtechs para ampliar seus próprios ecossistemas digitais — movimento de fusões e aquisições que tende a se intensificar à medida que a categoria de emagrecimento amadurece e passa a exigir integração entre prescrição, dispensação e acompanhamento, algo que nenhuma ponta isolada da cadeia consegue entregar sozinha.

Estudo de caso: MEDYnow

Dentro desse cenário de reorganização do mercado em torno do "depois da caneta", a MEDY NOW é um exemplo de empresa nascida diretamente da lógica de acompanhamento contínuo. A plataforma, disponível em now.medy.com.br e operada pela SiiM Saúde Tecnologia Ltda., integra um ecossistema mais amplo que também reúne a SPASS Benefícios, o Saúde Concierge, a MEDY Exames e a Mavvi Saúde — conjunto de marcas voltadas a diferentes frentes de acesso à saúde no Brasil.

O posicionamento da MEDY NOW se concentra no acompanhamento médico do processo de emagrecimento, e não na simples dispensação de medicamento. A jornada do usuário começa por uma etapa de triagem, seguida de consulta — presencial ou por telemedicina, modalidade amparada pela legislação vigente — com médico habilitado a avaliar elegibilidade clínica e, quando indicado, prescrever tratamento. O catálogo de conteúdo educativo da plataforma cobre praticamente todo o espectro de medicamentos hoje discutidos no mercado brasileiro — semaglutida, tirzepatida, bupropiona associada à naltrexona, entre outros —, com páginas dedicadas a explicar mecanismo de ação, forma de aplicação, armazenamento, ajuste gradual de dose e sinais de alerta que exigem atendimento médico imediato. A plataforma também oferece, via WhatsApp, agendamento de consultas com psicólogo, sinalizando a tentativa de cobrir a dimensão comportamental do tratamento — não apenas a farmacológica.

Como o restante do ecossistema MEDY e SPASS ao qual está associada, a MEDYnow se define explicitamente como uma rede de acesso com desconto, e não como plano de saúde: o modelo prevê que o cliente pague diretamente ao prestador de serviço, com consultas com médicos especialistas disponibilizadas em até 15 dias, sujeitas à disponibilidade da rede parceira. É uma distinção relevante em um mercado no qual a linha entre "plano de saúde", "clube de benefícios" e "farmácia com prescrição facilitada" nem sempre é clara para o consumidor — e onde a transparência sobre o que exatamente está sendo vendido (acesso a rede de profissionais, e não cobertura de sinistro) tende a se tornar um diferencial competitivo à medida que o setor amadurece e a fiscalização regulatória aumenta.

O caso da MEDY NOW ilustra bem uma tese mais ampla que percorre esta reportagem: no mercado de emagrecimento pós-GLP-1, a competição não se dá apenas entre farmacêuticas ou entre farmácias, mas entre diferentes arquiteturas de acompanhamento — quem consegue combinar prescrição responsável, conteúdo educativo, suporte multidisciplinar e conveniência de acesso em uma única jornada, sem se transformar nem em mera vitrine de medicamento, nem em burocracia inacessível. Não é uma equação trivial, e nenhuma empresa do setor — no Brasil ou fora dele — pode hoje alegar tê-la resolvido de forma definitiva.

O tamanho da oportunidade

Os números que sustentam esse movimento são, em qualquer critério, extraordinários — e ajudam a explicar por que tantos capitais, de farmacêuticas a fundos de venture capital, estão apostando no setor.

A base epidemiológica. O Brasil vive uma curva ascendente e persistente de excesso de peso. Segundo o Vigitel 2024 — pesquisa anual do Ministério da Saúde que monitora fatores de risco para doenças crônicas nas capitais brasileiras, divulgada no início de 2026 —, a prevalência de excesso de peso entre adultos passou de 42,6% em 2006 para 62,6% em 2024, enquanto a obesidade (IMC igual ou superior a 30) saltou de 11,8% para 25,7% no mesmo intervalo — um crescimento de quase 14 pontos percentuais em quase duas décadas. O mesmo levantamento mostra o diabetes autorreferido subindo de 5,5% para 12,9% da população adulta e a hipertensão arterial passando de 22,6% para 29,7%, reforçando que a obesidade caminha lado a lado com outras doenças crônicas não transmissíveis. Em paralelo, o Atlas Mundial da Obesidade 2025 estimou que 68% da população brasileira apresenta sobrepeso e 31% vive com algum grau de obesidade — uma das bases populacionais mais amplas do mundo para uma indústria voltada ao controle de peso.

O mercado farmacêutico. No plano global, o mercado de medicamentos à base de GLP-1 saltou de US$ 13 bilhões em 2022 para US$ 48 bilhões em 2024, segundo compilação da consultoria Strategy& (PwC) com dados de Grandview Research, Statista e IQVIA — uma multiplicação por quase quatro em apenas dois anos. As projeções para 2030 variam conforme a instituição, mas convergem para a mesma ordem de grandeza: US$ 150 bilhões segundo a corretora TD Cowen (que estima 59 milhões de usuários ativos de terapias GLP-1 no mundo até o fim da década), mais de US$ 160 bilhões segundo o Itaú BBA, e até US$ 183 bilhões segundo a Strategy&. Consultorias especializadas em pesquisa de mercado farmacêutico, como a Grandview Research, calculam patamares na mesma faixa, com taxas de crescimento anual composto entre 12% e 17% ao longo da década.

No Brasil, o mercado de agonistas de GLP-1 já movimentou cerca de R$ 10 bilhões em 2025 — o equivalente a aproximadamente 4% de todo o mercado de varejo farmacêutico nacional —, segundo estimativas convergentes do Itaú BBA e da XP Research. As importações desses medicamentos cresceram 77% ao longo de 2025, evidenciando a aceleração da demanda. O Itaú BBA projeta que o mercado brasileiro de GLP-1 pode alcançar R$ 50 bilhões até 2030, com uma base estimada de 15 milhões de usuários — praticamente cinco vezes o tamanho atual. A Strategy&, em métrica separada e em dólares, projeta um salto de US$ 2 bilhões em 2025 para US$ 9 bilhões em 2030, um crescimento anual composto de 35%, cerca de dez pontos percentuais acima da média mundial — puxado, entre outros fatores, pela expiração da patente da semaglutida no Brasil, prevista para março de 2026, que deve abrir caminho para a entrada de versões genéricas e pressionar os preços para baixo.

A saúde digital como categoria. Somado a esse mercado estritamente farmacêutico, o setor de saúde digital brasileiro — do qual as healthtechs de acompanhamento de emagrecimento são uma fatia crescente — movimentou US$ 6,34 bilhões em 2024, com projeção de chegar a US$ 21,9 bilhões até 2030. É nesse território, entre o medicamento e a tecnologia, que emergem as oportunidades de que trata esta reportagem: não apenas vender a caneta, mas vender toda a arquitetura de acompanhamento em torno dela.

Vale a ressalva metodológica que qualquer boa cobertura de mercado deve fazer: estimativas de mercados emergentes variam significativamente conforme a metodologia e a instituição responsável pelo cálculo, e projeções de longo prazo — sobretudo em um setor tão sujeito a mudanças regulatórias, expiração de patentes e entrada de novos concorrentes — devem ser lidas como cenários plausíveis, não como certezas.

Desafios e futuro

A pergunta que ronda investidores, médicos e reguladores é a mesma: a febre das canetas é um modismo passageiro, fadado a esfriar como tantas tendências de bem-estar antes dela, ou o início de uma transformação estrutural na forma como o Brasil — e o mundo — lida com obesidade e doenças metabólicas?

Os argumentos a favor da tese estrutural são consistentes. Primeiro, a base epidemiológica não é uma moda: é uma curva de décadas, documentada por pesquisas oficiais desde 2006, que não dá sinais de reversão espontânea. Segundo, a eficácia clínica dos GLP-1 é robusta e amplamente documentada em estudos publicados em revistas médicas de alto impacto, o que os distingue de ciclos anteriores de produtos "milagrosos" para emagrecimento sem lastro científico comparável. Terceiro, o movimento de expiração de patentes — com a semaglutida perdendo exclusividade no Brasil a partir de março de 2026 — tende a baratear o acesso e ampliar a base de usuários de forma sustentada, e não apenas entre quem pode pagar mais de 70% de um salário mínimo por mês. Quarto, a indústria farmacêutica já sinaliza a próxima geração de moléculas — como a retatrutida e o orforglipron, além de versões orais da semaglutida, ainda sem pedido de aprovação junto à Anvisa — o que sugere um ciclo de inovação contínuo, e não um pico isolado.

Do lado dos riscos e incertezas, três frentes merecem atenção particular de quem acompanha o setor.

A primeira é regulatória. A Anvisa já demonstrou disposição para apertar o cerco sobre falsificação e venda irregular, com a exigência de retenção de receita para Ozempic sendo apenas o mais recente de uma série de alertas emitidos desde 2023. É razoável esperar que a agência amplie esse tipo de controle à medida que o mercado formal cresce e o mercado paralelo, alimentado por escassez e preço elevado, continua a representar risco real à saúde pública — como evidenciam os casos de hospitalização já registrados. Empresas de telemedicina e acompanhamento que constroem reputação sobre rigor clínico tendem a se beneficiar dessa fiscalização mais rígida; operações menos criteriosas tendem a ser as primeiras a sofrer com ela.

A segunda é o debate sobre cobertura. Hoje, a esmagadora maioria do consumo de GLP-1 para emagrecimento no Brasil é paga do próprio bolso do paciente, dado o custo elevado e a ausência de cobertura ampla por parte de operadoras de planos de saúde para o uso especificamente estético ou de perda de peso (fora dos casos clínicos já cobertos, como diabetes). A tendência observada em mercados mais maduros é de pressão crescente, por parte de pacientes e sociedades médicas, para que a obesidade seja tratada como a doença crônica que a Organização Mundial da Saúde já a reconhece — o que abriria caminho, no médio prazo, para discussões sobre reembolso parcial ou cobertura por parte de planos e de benefícios corporativos. Não há, até o momento, sinalização definitiva de mudança regulatória nesse sentido no Brasil, mas é uma variável que pode redesenhar significativamente o tamanho e a dinâmica do mercado nos próximos anos.

A terceira é a sustentabilidade do modelo de acompanhamento em si. Ainda é cedo para saber se os aplicativos, plataformas de telemedicina e programas de assinatura hoje em expansão conseguirão reter usuários no longo prazo — historicamente, categorias de bem-estar e emagrecimento enfrentam alta rotatividade de clientes (churn), e o desafio de qualquer healthtech do setor será provar que seu acompanhamento agrega valor suficiente para justificar a recorrência de pagamento, e não apenas servir como intermediária de acesso a um medicamento que o paciente poderia, em tese, obter diretamente com seu médico de confiança.

O que vem pela frente

Projetar cinco anos em um mercado que se reconfigurou inteiramente nos últimos três é, por definição, um exercício de humildade analítica. Ainda assim, os dados e tendências levantados nesta reportagem permitem esboçar alguns caminhos prováveis para o mercado brasileiro de emagrecimento entre agora e 2031.

O primeiro é a democratização de preço. A expiração da patente da semaglutida no Brasil a partir de março de 2026 deve inaugurar um ciclo de entrada de genéricos e biossimilares — replicando o que já ocorre em mercados como Índia, Canadá, China e Turquia, segundo mapeamento da IQVIA — pressionando para baixo o custo que hoje exclui grande parte da população de renda média e baixa do acesso a esses medicamentos. Como a obesidade cresce de forma particularmente acentuada entre as camadas de menor renda, associada a acesso limitado a alimentos nutritivos, a queda de preço tende a ser o fator isolado com maior potencial de expandir a base de usuários no país.

O segundo é a consolidação da telemedicina como porta de entrada padrão para o tratamento. Com a Lei nº 14.510/2022 e a Resolução CFM 2.314/2022 conferindo segurança jurídica definitiva à prática, é razoável esperar que cada vez mais healthtechs, redes de farmácia e clubes de benefícios de saúde incorporem trilhas específicas de triagem e acompanhamento remoto para pacientes em tratamento com GLP-1 — reduzindo a fricção de acesso, mas também exigindo protocolos clínicos mais robustos para evitar prescrição inadequada em escala.

O terceiro é a consolidação via fusões e aquisições. Grandes players de varejo farmacêutico e diagnóstico, que já vêm comprando healthtechs para ampliar seus ecossistemas digitais, tendem a intensificar esse movimento especificamente na vertical de emagrecimento — buscando integrar prescrição, dispensação, monitoramento e conteúdo educativo em uma única jornada de ponta a ponta, algo que hoje está fragmentado entre múltiplos fornecedores.

O quarto é a maturação do debate sobre reembolso. Ainda que não haja sinalização regulatória definitiva no horizonte imediato, a pressão de pacientes, sociedades médicas e, eventualmente, empregadores interessados em produtividade e redução de custos com doenças crônicas associadas à obesidade deve manter viva a discussão sobre cobertura parcial por operadoras de saúde e programas de benefícios corporativos — hoje uma fronteira praticamente inexplorada no país.

O quinto, e talvez o mais decisivo para quem constrói negócios nesse espaço, é a disputa por diferenciação em um mercado que deixará, em algum momento, de crescer apenas por causa da novidade farmacológica. À medida que o acesso ao medicamento se tornar commodity — mais barato, mais disponível, menos diferenciado entre fornecedores —, o valor econômico tende a migrar para quem conseguir provar resultado clínico sustentado, retenção de peso perdido no longo prazo e uma experiência de acompanhamento que o paciente sinta que vale a pena pagar de forma recorrente. Nesse cenário, o vencedor do mercado brasileiro de emagrecimento nos próximos cinco anos provavelmente não será quem vender a caneta mais barata, mas quem construir a jornada mais completa em torno dela — combinando rigor médico, tecnologia, dados e confiança em uma equação que, até agora, nenhuma empresa, no Brasil ou no mundo, resolveu de forma definitiva.

Fontes consultadas: Ministério da Saúde/Vigitel (2023 e 2024); Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM); Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS); Atlas Mundial da Obesidade 2025; Strategy& (PwC); TD Cowen; Itaú BBA; XP Research; Grandview Research; Fortune Business Insights; IQVIA; Ipsos; Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa); Organização Mundial da Saúde (OMS); Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD); Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso); Distrito/Associação Brasileira de Startups de Saúde e HealthTechs (ABSS) — HealthTech Recap 2024; Liga Ventures; Tracxn; Conselho Federal de Medicina (CFM); Presidência da República (Lei nº 14.510/2022); now.medy.com.br.

Nota: dados de mercado, especialmente projeções para os próximos anos, variam conforme a metodologia de cada instituição e devem ser interpretados como estimativas, não como valores definitivos.

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